A desigualdade entre quem conseguiu manter a rotina de estudos e de quem não conseguiu ficou mais preocupante na última edição do ENEM, com abstenções recordes sendo registradas. Entre as mais variadas causas ligadas à pandemia, o sentimento de incapacidade também pode explicar os números. Embora o Inep tenha aberto a possibilidade de reaplicação das provas, como fica a preparação daqueles que farão as próximas edições ou que terminaram o Ensino Médio e não contam mais com o auxílio de um professor?
Com milhões de jovens precisando estudar em casa sem uma infraestrutura muitas vezes adequada, sites, canais do Youtube, perfis do Instagram e videoaulas se tornaram o caminho mais conhecido para se preparar para os vestibulares ou concursos públicos. Porém, como explica Noslen Borges, dono do maior canal de ensino de Língua Portuguesa do YouTube, com mais de 3 milhões de inscritos, o excesso de tempo no mundo virtual durante a quarentena desestimulou muitos alunos a permanecerem dentro das redes para continuar estudando.
Ele conta que sua percepção ao longo de 2020 foi a de que quem teve acesso a algum tipo de ensino remoto na escola perdeu interesse em acessar outros meios, e quem não conseguiu se perdeu em meio a tantas opções, desistindo de aprofundar ou complementar alguma disciplina.
“Como a única saída apresentada aos estudantes foram aulas no ambiente digital, o acúmulo de horas trouxe uma exaustão àqueles que não estavam acostumados a este formato. É preciso oferecer mais alternativas para 2021 não ser tão maçante quanto foi o ano passado”, diz.
A percepção do professor vai ao encontro do que pesquisas têm apontado durante esse período, com um aumento considerável do uso de internet por parte do brasileiro. Segundo o relatório Digital in 2020, realizado pelo We Are Social e Hootsuite, o Brasil ficou em 3º lugar num ranking de 42 países que mais usaram as redes no ano passado.
O excesso de exposição aos dispositivos eletrônicos pode desencadear uma série de problemas que vão desde má postura, alternância de humor e concentração, até problemas de crescimento e dependência tecnológica. Por isso, especialistas recomendam que pais e instituições de ensino proporcionem outras atividades educacionais fora das telas.
A professora Giancarla Bombonato, especialista em carreiras no serviço público e docente no AlfaCon Concursos, também concorda com essa avaliação e sugere que estudantes e familiares procurem alternativas dentro de suas realidades socioeconômicas, podendo ser aulas particulares em associações ou cursinhos populares e até mesmo por meio de livros didáticos.
