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Doenças digestivas crescem com alimentação irregular e rotina acelerada

Internações por problemas do aparelho digestivo avançam no país, e a Bahia aparece entre os estados mais afetados. Médicos apontam a combinação de comida ultraprocessada, refeições apressadas e estresse como pano de fundo.

A refeição feita em pé, entre uma tarefa e outra, virou rotina para boa parte dos trabalhadores brasileiros. O almoço de meia hora, o lanche resolvido no caminho e o jantar tarde da noite deixaram de ser exceção e passaram a definir o padrão de quem vive sob pressão de horários.

Esse jeito de comer cobra um preço que demora a aparecer. As doenças do aparelho digestivo estão entre as que mais levam brasileiros ao hospital, e os números recentes mostram um movimento de alta que preocupa os serviços de saúde.

Um boletim epidemiológico do Ministério da Saúde divulgado em 2020 registrou que as doenças digestivas mataram mais de 156 mil pessoas no Brasil em um único ano, o equivalente a quase 12% de todos os óbitos do período.

Mais da metade dessas mortes atingiu pessoas com menos de 70 anos, faixa em que a doença ainda poderia ter sido controlada com diagnóstico precoce.

A Bahia entre os estados mais afetados

A região não está fora dessa conta. A Bahia figura entre os três estados brasileiros com maior percentual de internações por doenças do aparelho digestivo, conforme dados do Ministério da Saúde apresentados no encontro Gastro Bahia de 2024, realizado em Salvador.

No território baiano, essas doenças respondem por cerca de 40 mortes a cada 100 mil habitantes e aparecem como causa relevante em 40% dos 417 municípios do estado. Os tumores de estômago, esôfago e intestino estão entre a terceira e a quarta causa de morte por câncer entre homens e mulheres na Bahia.

O perfil de quem adoece reforça a ligação com hábitos de vida. Os homens concentram quase 58% dos óbitos por essas causas, número que os especialistas associam ao consumo de álcool iniciado cedo e a uma alimentação mais desregrada ao longo dos anos. A demora masculina em procurar atendimento médico aparece como agravante recorrente nos estudos sobre o tema.

O prato mudou e a rotina acelerou

A explicação para o avanço dessas doenças passa pela mudança na mesa do brasileiro. O arroz com feijão dividiu espaço com produtos industrializados, ricos em gordura, sódio e conservantes, consumidos com frequência por quem não tem tempo de cozinhar nem de sentar para comer.

Estudos baseados no DATASUS ajudam a medir esse efeito. Uma análise das internações por doenças digestivas em Uberlândia, em Minas Gerais, mostrou que a taxa subiu de cerca de 595 para mais de 1.100 casos por 100 mil habitantes entre 2016 e 2023, com tendência de crescimento consistente ao longo de todo o período observado.

No caso das doenças inflamatórias intestinais, o salto é ainda mais visível. Levantamento da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, apoiado no sistema de internações do SUS, apontou aumento de 61% nas hospitalizações em dez anos, passando de 14.782 registros em 2015 para 23.825 em 2024.

A prevalência dessas doenças seguiu o mesmo caminho. Uma pesquisa com dados do DATASUS identificou crescimento de 30 para 100 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2020.

Os médicos relacionam o avanço ao consumo de ultraprocessados, a alterações na flora intestinal e ao estresse contínuo, três fatores que caminham juntos na vida de quem vive correndo.

O diagnóstico que chega tarde

O problema não está apenas no número de casos, mas no momento em que o paciente procura ajuda. Boa parte das doenças digestivas evolui de forma silenciosa, com sintomas que se confundem com episódios passageiros de má alimentação e que o paciente aprende a tolerar.

De acordo com cirurgiões do aparelho digestivo de Goiânia, a diferença entre um tratamento simples e uma cirurgia complexa costuma ser medida em anos de sintoma ignorado. Quando o paciente finalmente chega ao consultório, em muitos casos a doença já avançou para um estágio que exige intervenção maior do que seria necessário no início.

Esse atraso tem consequência direta nos casos de câncer digestivo. Tumores de estômago e de esôfago descobertos em fase avançada têm tratamento mais difícil e menor chance de sucesso, enquanto o diagnóstico feito cedo amplia de forma expressiva a possibilidade de cura e reduz a agressividade do procedimento.

A rotina acelerada agrava o quadro. Quem vive sob pressão de horários tende a empurrar a consulta médica para depois, normaliza a dor que volta sempre e recorre a remédios de farmácia que aliviam o incômodo momentâneo sem tratar a origem do problema.

Os sintomas que não deveriam virar rotina

Alguns sinais merecem atenção justamente porque parecem banais. A azia frequente e a sensação de empachamento depois das refeições são queixas que muita gente carrega por meses sem dar a devida importância, na suposição de que se trata apenas de uma digestão lenta.

A repetição é o ponto de virada. Um desconforto isolado depois de uma refeição pesada não configura doença, mas a queimação no estômago que retorna duas ou mais vezes por semana, durante semanas seguidas, passa a exigir avaliação profissional e não pode ser tratada apenas com antiácido.

Dor ao engolir, perda de peso sem causa aparente, vômitos frequentes e presença de sangue nas fezes são sinais de alarme que não admitem espera. Nesses casos, exames como a endoscopia digestiva alta deixam de ser opcionais e se tornam o caminho para identificar lesões antes que elas avancem para complicações graves.

A idade também pesa na decisão. Pessoas acima dos 40 anos com sintomas digestivos persistentes há vários anos entram no grupo que precisa de investigação mais detalhada, porque é nessa faixa que se concentram as complicações mais sérias, incluindo alterações no revestimento do esôfago associadas à exposição prolongada ao ácido.

Quando a investigação muda o desfecho

A maior parte das doenças digestivas tem bom controle quando descoberta cedo. Mudanças na alimentação, redução do peso, corte no álcool e acompanhamento médico resolvem boa parte dos quadros sem necessidade de cirurgia, com retorno gradual à qualidade de vida.

Para os casos que não respondem ao tratamento clínico, a medicina ganhou recursos menos invasivos nas últimas décadas. Procedimentos que antes exigiam grandes incisões e longa internação hoje são feitos por videolaparoscopia, com pequenos furos no abdome, tempo de internação curto e recuperação mais rápida. A mudança reduziu a resistência dos pacientes à indicação cirúrgica nos casos em que ela se mostra necessária.

A decisão sobre qual caminho seguir depende de diagnóstico preciso. É por isso que os especialistas insistem na investigação diante de sintomas que se repetem, em vez do uso prolongado de medicamentos por conta própria, hábito que apenas mascara a evolução da doença e empurra o problema para a frente.

O sinal que se repete

Segundo Dr. Thiago Tredicci, médico especialista em cirurgia do aparelho digestivo em Goiânia, o corpo costuma avisar antes de a doença se agravar, mas o aviso quase sempre vem disfarçado de incômodo comum.

A queimação que parece igual à do mês passado, a digestão que nunca melhora e o desconforto que volta toda semana são mensagens que pedem investigação, não tolerância.

Para a população baiana, que figura entre as mais afetadas por essas doenças, a atenção a esses sinais ganha peso ainda maior. Reconhecer o problema cedo, ajustar a alimentação e procurar avaliação médica continua sendo o que separa um tratamento simples de uma cirurgia feita por necessidade, e não por escolha.

Ivanildo Bastos

Ivanildo Bastos é comunicador, radialista e locutor, atualmente cursando Jornalismo. Licenciado em Biologia, atua como repórter da Criativa On Line há 22 anos, destacando-se pela experiência, dedicação e compromisso com a informação de qualidade.

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