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Variações sobre um mesmo tema, a HOMOAFETIVIDADE

Certo dia, concentrei algumas pequenas reflexões sobre as cartas postadas nos correios, vítimas do processo tecnológico, reduzidas a uma missiva de mensagens virtuais que não oferece os mesmos vestígios da mão, caligrafia e timbre de quem escrevia, em letra miúda ou grossa, sob a convocação emergente de uma folha de papel.

É certo que os e-mails, mensagens espontâneas circuladas em redes sociais oferecem menos encargos financeiros – ou melhor, nenhum – do trabalho de correspondência entre quem registra a experiência e quem recebe notícias.

“De primeiro”, quem se atrevia a redigir cartas tinha de ter a capacidade, de abreviar, em duas laudas, no máximo, aspectos quotidianos da vida humana sem que essa “fala” manifestasse lembranças triviais ou desnecessárias. Fato que encontra seu eco também na forma antiga como as pessoas se comunicavam por meio do telefone ou telégrafo.

Outra grande celebração era receber a visita de um carteiro. Na minha época, em São Miguel das Matas, quem trabalhava nesse ofício era um rapaz chamado Alex; sua presteza ao entregar o material escondido naquela bolsa azul-amarelecida ofertava para qualquer “pagão ou sacristão” uma esperança: a de ser transformado pelo “fuxico” ou “buchicho” que chegava.

Enviei várias cartas e recebi inúmeras, de pessoas fabulosas, estranhas, desconhecidas, religiosas, ateias, cujo afeto traduzia sensações que remetiam a cuidados especiais que se relacionavam ao papel destacado sem as partes excedentes (e que se prendiam ao caderno), ou àquele tipo característico de correspondência, geralmente de escrita feminina ou homoafetiva, em que o material impresso, com pautas e figuras, tinha o nome de “papel de carta”.

O mais primitivo esforço de tradução de minha sexualidade começou a ser produzido a partir das cores que eu consumia dos papéis que comprava. As cartas eram perfumadas. A tinta da caneta tinha de combinar com o tecido mareante do conteúdo urdido não se sabe onde.  Eu me lembro de ter comprado uma pasta através da qual eu colecionava esses “papelotes”, como se isso fosse uma reserva pessoal do afeto recolhido em reação ao medo de ser visto, descoberto, exposto. Então, eu conservava um baú para guardar esse “álbum de memórias”.

Eu venho de uma família viciada em colecionar coisas. Minha mãe, por exemplo, compilava inúmeros tipos de antologias: álbum de figurinhas, bonés, livros de Adelaide Carraro, fitas K7 de Roberto Carlos, frases e textos em cadernos de capa grossa para uso cotidiano como professora primária. O interesse mais recente dela por coleções relaciona-se à cata de moedas de um real fundida para as olimpíadas no Rio de Janeiro.  Já o meu pai, até hoje, cataloga e guarda bíblias e revistas evangélicas.

Volto ao tema inicial de minha coleção: o baú e as cartas acomodadas nas sombras. Eu abria, “dia sim, dia não”, a fim de saber se elas ainda estavam ali e se estavam bem. Quem sabe se, de repente, alguma traça desavergonhada desejasse aparecer para comer o “último frasco de minhas vergonhas” acolhido ao bordado daquelas cores flamejantes no papel timbrado.

Uma vez, atrevi-me ao “segredo da arca” e, em meio ao barulho de minha homossexualidade, escrevi a carta-de-todas-as-cartas que nunca seria postada no correio.

Era para uma travesti de minha cidade que atendia pelo nome de Sheila Preta. Eu não sei, ao certo, se tratá-la como “travesti” revestiria de força o caráter do que Ela significava. Eu só sei que Ela me convocava ao choque de um corpo negro, visto no feminino, ali interpretado, em total vigor e febre, na tentativa de desmembrar os preconceitos racial, classista e de gênero enfrentados em seu dia a dia.

Ela, Sheila Preta – volto a repetir: SHEILA PRETA –, desmontava e escamoteava aquela mitologia, quase renascentista, em torno da imagem projetada sobre uma mulher.

A “bicha” era “babadeira”, “bocuda” e não “desaqüendava” se não perturbasse o juízo das pessoas com seu chocalho falante e desfilante. E fora exatamente para essa entidade, quase ancestral e transexual de minha infância, que eu dediquei algumas palavras em minhas cartas secretas.

A primeira coisa a saber sobre isso é de que eu nunca poria aquele texto no correio; a segunda, era o fato de o conteúdo se lançar a um mar tão desconhecido que nem eu atinava fôlego para nadar na maré das expressões desejantes de resposta.

Sim, eu queria saber se Ela era mulher ou homem, ou uma clivagem entre as duas coisas. Queria respostas no sentido de descobrir o porquê de eu me incomodar tanto com a sua imagem a ponto de me esconder sempre que a via, como a camuflar de mim a potência do que eu seria, ou o medo de a estranheza daquela loucura mexer comigo de tal forma que desejasse pertencer e aderir àquela selvageria e ao atrevimento, como equipamentos sensíveis de luta contra a censura e o preconceito.

A carta que não pus no correio me inquieta até hoje.

No transcurso do papel colorido, uma bicha preta rasurava, manchava, com tinta-cor-de-sangue, o desenho pródigo lançado sobre o que viria a ser uma mulher ou uma bicha pertencente àquela cercania ou a outro lugar equidistante do planeta. E, por isso, Ela era quase uma exilada de si mesmo.

É importante frisar e narrar que seu nome, Sheila Preta, é um subterfúgio que lhe coube ao “nome de guerra” ostentado naquela valentia (…) e que se tornara uma “solução criativa e recreativa” do meu município na faculdade de nomear as mulheres trans que por lá circulavam.

O nome “Sheila Preta” foi-lhe concedido como um atributo de diferenciação de uma outra trans que se chama(va) Sheila e é uma ativista LGBTQ+ de minha terra. Hoje, bastante conhecida como “a Leo Stylos”.

O cognome agregado à etnia e cor, afro-brasileiras, associado à Sheila Preta a distinguia exatamente por evocar uma transexualidade, triplamente, negada, proibida e vinculada ao fato inconteste de ser: preta, pobre e viada.

Acontece que Sheila Preta, por conflitos emocionais desconhecidos – ou melhor, “desreconhecidos” –, acabou atentando, com êxito, contra a própria vida ao tomar uma mistura de chumbinho com aguardente. As narrativas sobre seu suicídio ainda se mantêm atadas a uma espécie de “obscurantismo” memorialista e histórico de minha cidade.

O que chega de informação útil resume-se a dois relatos: o de Ingreed (conhecida, na minha cidade, como Guiu de Dona Lourdes), testemunha ocular da situação suicida, e a Wilka Beyoncé Delylah, uma mulher trans de cidadania miguelense, cujo depoimento, contundente e denunciante, aborda alguns aspectos da causa mortis dessa personagem sobre os quais eu ainda me reservo a interpretar e entender as razões.

Talvez fosse prudente voltar a reescrever a “carta-de-todas-as-cartas” e, dessa vez, postá-la no correio do tempo, junto a seu túmulo; ou, como é de meu interesse atual, coletar informações para, em algum momento, lançar uma embarcação literária em meio ao boom desgastante de biografias e/ou romances de testemunho.

Despeço-me pedindo aos conhecidos, amigos, afetos bondosos (e duvidosos), pessoas simpáticas à questão LGBTQ+: que me enviem depoimentos, documentos, imagens, relatos, desabafos, áudios, vídeos sobre Sheila Preta.

Deixo aqui minha caixa-postal, joberelis@gmail.com, como um dos recursos disponíveis a fim de que sejam enviadas informações sobre essa figura dramática e performática de minha cidade. Caso prefiram, acolho, de bom grado, tanto cartas enviadas através do correio comum ou mensagens trocadas no Instagram e/ou Facebook.

Será de importância capital urdir a trama desses acontecimentos embotada ao balcão de memórias perdidas e esquecidas sobre aqueles e aquelas a quem devemos apoio e solidariedade em razão de terem sido figuras marcantes e atuantes na construção de afetos, expressivamente, políticos de nossas causas coletivas.

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