
Com a presença de representantes do governo federal, universidades de todo o Brasil e convidados internacionais, foi lançada oficialmente na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) a Rede Nacional de Pesquisa sobre Escolas Multisseriadas, uma iniciativa inédita que visa subsidiar políticas públicas voltadas à realidade educacional de milhares de comunidades do campo.
O evento de lançamento aconteceu no campus da UFRB em Amargosa, no Centro de Formação de Professores (CFP), e marca o início de um seminário de três dias de debates, oficinas e mesas de trabalho sobre os desafios e as potencialidades das escolas multisseriadas — modelo comum em regiões rurais onde alunos de diferentes séries compartilham a mesma sala e o mesmo professor.
A professora Maria do Socorro, diretora de Políticas da Educação do Campo do Ministério da Educação (MEC), destacou a amplitude da ação:
“Essa rede tem alcance nacional e internacional. Hoje, aqui em Amargosa, estamos recebendo representantes da União e também parceiros de fora do país. Essa articulação é essencial para dar visibilidade e suporte às escolas multisseriadas, que por muito tempo ficaram invisíveis na agenda pública”.
UFRB à Frente da Coordenação Nacional
O professor Fábio José, que esteve à frente da criação da rede, ressaltou a longa trajetória da UFRB na pesquisa e no fortalecimento da Educação do Campo:
“A UFRB já tem um trabalho consolidado nessa área, especialmente aqui no CFP, onde atuamos diretamente com o estudo das escolas multisseriadas. Em 2023, com a recriação da Secad, recebemos o convite da professora Maria do Socorro para propor uma pesquisa nacional, e desde então construímos essa rede”, explicou.
A rede é coordenada pela UFRB em parceria com mais cinco universidades públicas, com o apoio da SECADI, da Coordenação Nacional da Educação do Campo e do Fórum Nacional da Educação do Campo (FONEC). Embora este seja o primeiro seminário aberto ao público, o projeto já vinha sendo desenvolvido desde o início do ano, com atividades internas e encontros restritos. O primeiro lançamento da rede aconteceu em março na UFMG, que também integra a coordenação.
“Agora estamos fazendo esse grande lançamento em Margosa [Amargosa], para um público mais amplo. As atividades seguem por três dias, e quem estiver no Vale do Cunissá, na Bahia ou em qualquer lugar do Brasil pode acompanhar tudo pela TV UFRB e pela TV FONEC”, destacou Fábio.
Educação do Campo na Agenda Nacional
Reconhecido como um dos primeiros profissionais a pesquisar Educação do Campo no país, Fábio relembrou com emoção o início dessa luta coletiva:
“Passa um filme na cabeça. A Educação do Campo surge no final dos anos 90, fruto da mobilização dos movimentos sociais. Quando a UFRB foi criada, ela incorporou essa pauta. Eu e outros colegas já vínhamos discutindo isso, desde a época da UNEB, e depois aqui no CFP, com um foco específico nas escolas multisseriadas.”
Segundo o professor, o momento é inédito. Pela primeira vez, o governo federal reconhece formalmente a pauta das escolas multisseriadas, inserindo-a no centro da política educacional.
No novo Plano Nacional de Educação do Campo, atualmente em elaboração, quatro artigos são dedicados especificamente às escolas multisseriadas. O plano prevê também a criação do PROMUT — Programa Nacional de Valorização das Escolas Multisseriadas — que será construído com base nas contribuições da nova rede de pesquisa.
“É um momento inédito, um reconhecimento que esperávamos há muito tempo. Estamos felizes e comprometidos em ajudar a construir o PROMUT, com base em pesquisa, diálogo e compromisso com as comunidades do campo”, concluiu Fábio.

