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Testículos retidos não tratados ampliam possibilidade de câncer

Criptorquidia pode afetar até 45% dos bebês que nascem prematuramente

Testículos que permanecem no abdômen ou na virilha em vez de descerem para o escroto caracterizam a chamada criptorquidia, uma das patologias uro-pediátricas mais frequentes, assim como a fimose e a hidrocele. Testículos retidos raramente causam sintomas. Quando permanecem no abdômen, porém, podem causar torsão testicular, que causa dor intensa. Além disso, se não tratada na infância, a doença pode prejudicar a produção de espermatozoide no futuro e/ou aumentar o risco de desenvolvimento do câncer testicular. A maioria dos recém-nascidos com criptorquidia também apresenta hérnia inguinal.

Segundo o Ministério da Saúde, aproximadamente três em cada 100 meninos (3%) que nascem a termo (nove meses) apresentam um testículo retido no nascimento. Contudo, aproximadamente 30 em cada 100 bebês (30%) que nascem prematuramente apresentam a doença. “O número de bebês nascidos no tempo certo que apresentam criptorquidia pode chegar a 4%, mas o problema afeta até 45%” dos bebês prematuros”, destacou o urologista geral e pediátrico Leonardo Calazans. Quanto mais prematuro o bebê, maior a chance de ocorrência do problema. Cerca de 150 mil novos casos por ano são registrados no Brasil.

Os meninos que têm familiares com testículos retidos têm maior probabilidade de apresentar o quadro. Geralmente, apenas um testículo fica retido, mas, em aproximadamente 10% dos casos, os dois testículos são afetados. Quando a doença é unilateral, não há evidências de diminuição da taxa de fertilidade, mas quando é bilateral, as chances de paternidade comprovadamente são reduzidas.

De acordo com Leonardo Calazans, que é diretor do núcleo de urologia do Instituto Baiano de Cirurgia Robótica (IBCR) e preceptor de urologia das Obras Sociais Irmã Dulce (Salvador) e do Hospital Estadual da Criança (Feira de Santana), “pacientes com criptorquidia têm 2,2 vezes mais chances de desenvolver um tumor de testículo do que uma criança normal. Caso seja tratado tardiamente (após os 14 anos), este número pode chegar a 5 ou 6 vezes. E se o problema não for tratado até a vida adulta, o risco de desenvolvimento de um câncer de testículo aumenta até 40 vezes”, destacou o urologista.

Diagnóstico e tratamento precoces – Para evitar os possíveis impactos da doença em seu filho João Andrade,  a designer de interiores Ana Carolina Andrade agiu adequadamente quando descobriu, durante consultas pediátricas de rotina, nos primeiros meses de vida do menino, que ele tinha o testículo esquerdo  criptorquídico. Orientada pela pediatra, assim que João completou dois anos de idade, a mãe levou o filho a uma consulta com o urologista pediátrico Leonardo Calazans para acompanhamento e análise da necessidade de uma possível cirurgia. Através de exames clínicos, o especialista verificou que o testículo esquerdo não permanecia na bolsa escrotal e que pela idade do João, dificilmente iria voltar sozinho para o lugar sem uma intervenção cirúrgica. 

Durante a cirurgia para colocar o testículo na bolsa escrotal de João, o cirurgião aproveitou e fez a fimose, que não era tão grave, mas se fazia necessária. “A cirurgia foi muito tranquila e rápida, porém o pós-operatório foi difícil, pois fazer uma criança de dois anos ficar quieta, sem muito movimento, é bem complicado. A cicatrização foi rápida e a recuperação também. Hoje, com quase 4 anos, meu filho está super saudável e feliz”, relatou Ana Carolina Andrade.

Entenda melhor – Os testículos se desenvolvem dentro do abdômen no feto. Depois disso, geralmente antes do nascimento, eles descem através de um túnel do abdômen para a virilha (canal inguinal) e, depois, para o escroto. Após a descida dos testículos, o túnel geralmente se fecha. Se o túnel não se fechar completamente, pode haver o desenvolvimento de uma hérnia inguinal, que raramente causa sintomas, embora os médicos, muitas vezes, possam senti-la. Às vezes, ocorre o acúmulo de líquido do abdômen ao redor dos testículos e ele fica retido no escroto após o fechamento do túnel. Esse líquido retido forma um nódulo macio denominado hidrocele, que costuma desaparecer durante o primeiro ano de vida. 

O testículo retido costuma ficar dentro do canal inguinal, mas às vezes, permanece no abdômen. Aproximadamente dois terços dos casos de testículos retidos descem espontaneamente até os quatro meses de idade em bebês a termo ou, no caso de bebês prematuros, até quatro meses depois da data em que eles teriam nascido se não tivessem nascido prematuramente. Os testículos que permanecem no abdômen na hora do nascimento têm uma probabilidade menor de descer espontaneamente. 

A cirurgia só é necessária se o testículo não descer “sozinho”. Dependendo da localização do testículo, ele pode ser trazido para dentro do escroto por meio de um procedimento cirúrgico convencional (incisão aberta) ou por meio de laparoscopia (procedimento no qual o médico pode ver dentro da cavidade abdominal através de um endoscópio). A cirurgia robótica, minimamente invasiva, também pode ser uma opção.

Testículos retráteis – Diferentemente dos testículos retidos, os testículos retráteis (hipermóveis) são aqueles que desceram para o escroto, mas podem facilmente retornar (se retrair) para dentro do canal inguinal como uma resposta reflexa à estimulação. Essa resposta é comum, particularmente em bebês e crianças. Os testículos retráteis não provocam câncer ou outras complicações. Em geral, esta retração para dentro da virilha deixa de ocorrer com a puberdade, porque os testículos crescem. Esses casos não precisam de cirurgia ou tratamento.

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