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Sobre vírus, cultura, comida e preconceito, mais respeito e menos pânico

Pela professora Angela Teodoro Grillo na China

Por Angela Teodoro Grillo na China.

A população na China hoje conta com mais de 1,4 bilhão. Até o momento, 6 mil pessoas foram contaminadas pelo vírus corona no mundo e cerca de 140 morreram. Dessas 140, a maioria era idosos ou pessoas que já apresentavam problemas de saúde. Se esses números ainda não forem suficientes para aliviar o seu pânico, saiba que na China, onde mais de 95% dos casos estão ocorrendo, as medidas de prevenção estão sendo levadas a sério pelo governo e pela população. Temos muito o que aprender com os chineses, principalmente no que diz respeito ao espírito coletivo. Desde o último sábado, as ruas estão vazias, os transportes públicos vazios, o comércio fechado, viagens sendo canceladas, espaços públicos sendo dedetizados… isso porque a população está em pânico? Não, o medo existe, mas o mais importante é que a população efetivamente colabora para conter a disseminação do vírus. A pergunta que não quer calar: seria isso possível em países europeus ou americanos? Acredito que o espírito individualista, salve-se quem puder, não permitiria. Por sinal, quando cheguei na China gostei de saber que, no cotidiano, os chineses usam máscaras quando estão doentes para não contaminar outras pessoas (captaram a diferença?). Como toda boa crise, esse novo vírus, que está causando mais do que pânico nas redes sociais e queda na bolsa de valores, faz máscaras caírem (metafóricas, porque as reais estão em quase todas as cabeças e estão custando o olho da cara). Diz a sabedoria popular que se você quiser conhecer alguém, conviva com ela em uma situação de perigo. Pois bem, toda essa história começou no meio da minhas férias na Tailândia, tenho convivido portanto com as mais diferentes pessoas, além disso, as redes sociais também me mostram como o ser humano é um bicho complexo. E aqui vale a pena falar um pouco sobre comida, cultura e preconceito. Foi com um professor historiador, Julio Pimentel, que aprendi que com a globalização a culinária é um aspecto importante de manutenção de identidade cultural, dizia ele que aquilo que nos diferencia não são fronteiras, mas o que comemos. Viajando, constatei que em todos os lugares por onde passei pessoas comem coisas estranhas, tem francês que como caramujo, mexicano que come grilo, brasileiro que come bucho, americano que toma refrigerante ad infinitum, chinês que como tartaruga. Caetano estava certo quando disse “De perto, ninguém é normal”: nem eu, nem você, nem o outro.

É também na culinária que o estereótipo se alimenta, se na Tailândia come-se arroz doce com manga (delícia!), a turistada mete os dentes em escorpião nos Night Markets e o tailandês aproveita pra ganhar uma graninha com os espetinhos. Na China, nunca vi churrasco de cachorro, mas em geral é a primeira pergunta que ouço quando alguém sabe que moro lá, por sinal nenhum aluno meu comeu carne de cachorro na vida, é como achar que mulher brasileira veste biquíni todos os dias em qualquer lugar (até cai bem o exemplo porque o corpo feminino brasileiro é visto como um tipo de comida também ). Faço parte de um grupo no WeChat (o what’s app chinês) de brasileiras na China e uma moça moradora de Wuhan afirma que nunca viu sopa de morcego por lá.Com o pânico generalizado, por causa do corona, começam a bombar fakenews sem limites, o vírus veio de sopa de rato, morcego, sogra. Vi outro dia um amigo, que luta pela liberdade das diferenças, postando um vídeo de uma moça chinesa comendo cobras e lagartos, ele comentava algo como, “vejam como os chineses são bizarros!” Um vídeo, de uma moça querendo aparecer no Youtube,  resume a população de 1,4 bilhōes?O Corona, assim como H1N1 (minha māe, em São Bernardo do Campo, foi contaminada no ano passado, e ainda bem se curou!), SARS ou qualquer outro são fatalidades e diante de qualquer fatalidade devemos dar apoio e não chutar cabeças (fakenews é chutar cabeças, tá ok?). Nessa crise, podemos escolher se continuamos a ser pets dos EUA e gritamos por resgates do bondoso capitão américa ou apoiamos e confiamos na eficiência dos chineses.

Com um outro professor, Alexandre Freitas Barbosa, aprendi que os chineses enquanto potência se diferenciam por não imporem sua cultura, para eles importam parcerias para o crescimento econômico. Ninguém precisa comer a mesma comida, mas respeito é fundamental.

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