
No último dia do I Seminário da RedeMulti, realizado na UFRB em Amargosa, as vozes dos movimentos sociais ecoaram com força, reafirmando a centralidade da agricultura familiar e da organização popular na construção de políticas públicas voltadas para a educação do campo.
Entre essas vozes, esteve Cosmeirina dos Santos Brito, liderança atuante do Sintraf (Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar) de Laje, da FETRAF Bahia e da CUT, além de presidente de associação comunitária e ex-aluna do curso de Educação do Campo da própria UFRB.
Em entrevista exclusiva à Criativa On Line, Cosmeirina destacou com firmeza:
“Sou fruto dessa universidade. E estar aqui hoje, representando minha classe — os trabalhadores e trabalhadoras do campo, das águas e das florestas — é um ato de gratidão, mas também de luta. A educação do campo nasceu da demanda da nossa classe por uma vida melhor. Por isso, é fundamental que estejamos aqui, não como ouvintes, mas como sujeitos ativos.”
Nada de nós sem nós
Durante a conversa, a dirigente destacou a importância da organização coletiva para garantir acesso às políticas públicas. Segundo ela, nada chega de mão beijada: é preciso pressão, diálogo e, sobretudo, presença ativa nas instâncias decisórias.
“Os governos só atendem às nossas demandas quando são pautados. É por isso que participamos de conselhos, câmaras técnicas, espaços de juventude e de mulheres. Só assim conseguimos conquistar programas como o PAA Direto e o PAA CONAB, que hoje beneficiam famílias em vulnerabilidade, colocando na mesa do povo a comida que vem do campo.”
Laje e o exemplo de resistência
Cosmeirina trouxe ainda o exemplo do município de Laje, onde coordena diversas iniciativas de base comunitária e sindical. Apesar das dificuldades, ela afirma que há avanços importantes conquistados através da pressão organizada dos movimentos sociais.
“Temos feito muito com pouco. Mas o que temos conseguido tem sido pela luta da nossa gente. O alimento saudável, produzido pelas mãos do agricultor familiar, chega às famílias porque há cooperativas e associações organizadas para fazer isso acontecer.”
Educação como base de tudo
Para Cosmeirina, toda e qualquer política pública passa pela educação. Sejam espaços formais ou não formais, é a formação que permite ao povo do campo compreender seus direitos e lutar por eles.
“É a educação que empodera, que transforma. E isso inclui reconhecer a escola multisseriada como espaço legítimo de aprendizagem. Como disseram tantas professoras aqui no seminário: a escola multisseriada é o coração da comunidade.”
Ela também ressaltou a importância de dados precisos para a formulação de políticas públicas efetivas, defendendo que o Censo Escolar reflita corretamente a realidade do campo.
“Quando o dado é real, a política chega certa, para o sujeito certo, no lugar certo. Por isso, nossas escolas precisam ser vistas com a especificidade que carregam.”
Mística, identidade e pertencimento
Durante o seminário, os movimentos sociais também contribuíram com expressões culturais e místicas — formas de resistência que unem arte, fé, luta e identidade. Para Cosmeirina, isso é parte essencial do processo educativo.
“A mística traz a nossa mensagem em forma de poema, música, grito de ordem. É nossa alma coletiva, é o que nos move. O seminário mostrou isso: que nada deve ser discutido sobre nós sem a nossa participação. Como já dizia Paulo Freire, nosso mestre:
‘Onde quer que haja homens e mulheres, há sempre o que ensinar, há sempre o que aprender.’”

