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“Eu jamais imagino a minha Bahia parada”, diz Luiz Mendonça

O empresário Luiz Mendonça relembra sua trajetória iniciada aos nove anos

Por Guilherme Reis, Henrique brinco e Paulo Roberto Sampaio

Empreendedor desde a infância, o empresário Luiz Mendonça relembra sua trajetória iniciada aos nove anos, na Feira de Água de Meninos, e defende a persistência como pilar central do sucesso nos negócios. Fundador do Grupo Luiz Mendonça, que reúne empresas como a Bravo Caminhões e a AuraBrasil, ele atribui o crescimento do conglomerado à dedicação contínua, ao envolvimento direto no dia a dia empresarial e a um propósito voltado à geração de empregos e impostos. Em entrevista à Tribuna, Mendonça avalia o ambiente econômico brasileiro, critica os juros elevados, destaca a importância da educação e da inovação e reforça que o papel do empreendedor vai além do lucro, envolvendo compromisso social, desenvolvimento regional e construção de legado para as próximas gerações. “As dificuldades foram desde o início, sempre muito grandes, mas nada que eu pensasse nunca em desistir. Desistir é uma palavra que eu não uso na minha linguagem, nunca usei, que é desistir. Então, eu queria construir um grupo empresarial e isso, com muito trabalho, com muita dedicação e muita perseverança, eu consegui fazer, graças a Deus”, diz.

Tribuna: O senhor começou a sua vida como empreendedor e empresário ainda criança. Que aprendizados daquela época inicial o senhor traz até hoje?

Luiz Mendonça: Olha, eu comecei, na verdade, com nove anos de idade, trabalhando na Feira de Água de Meninos, que na época era a feira mais importante de Salvador, da Bahia. E eu, na época com menos de nove anos, vendia caixa de fósforo na feira. Esse foi o meu primeiro empreendedorismo, vamos dizer assim. E hoje nós temos um grupo empresarial a nível nacional, bastante relevante.

Tribuna: A LM nasceu com três fuscas, transportando trabalhadores, e hoje tem milhares, dezenas de milhares de veículos por todo o país. Qual foi a sua decisão mais difícil e mais decisiva nessa trajetória de crescimento?

Luiz Mendonça: As dificuldades foram desde o início, sempre muito grandes, mas nada que eu pensasse nunca em desistir. Desistir é uma palavra que eu não uso na minha linguagem, nunca usei, que é desistir. Então, eu queria construir um grupo empresarial e isso, com muito trabalho, com muita dedicação e muita perseverança, eu consegui fazer, graças a Deus.

Tribuna: O senhor acredita que o que leva muitos a fracassarem ou a não alcançarem certos objetivos no empreendedorismo é a falta de persistência?

Luiz Mendonça: Eu não tenho dúvida. Eu acho que tem muito mais gente desistindo do que fracassando. Eu falo isso sempre nas minhas palestras. As pessoas desistem sem fracassar. Graças a Deus, eu nunca desisti por nenhum motivo e muito menos por fracassar. Porque eu sempre tive a sorte de conduzir todos os meus empreendimentos de maneira que tivessem sucesso.

Tribuna: Além da persistência, que outras características são necessárias para alcançar o êxito? Como identificar o momento certo de avançar ou arriscar para continuar mantendo essa trajetória de crescimento contínuo?

Luiz Mendonça: Eu acho que isso é exatamente você participando do dia a dia dos negócios, do dia a dia da conjuntura econômica, ainda mais a gente vivendo num país como o Brasil, que é um país muito mutável, com mudanças muito radicais e muito imprevisíveis. Eu nunca me amedrontei com isso. Eu sempre tinha uma direção a seguir. Essa direção era a do empreendedorismo, do crescimento, do desenvolvimento de postos de trabalho. Eu tinha isso em mente. Eu queria ter um legado na Bahia e no Brasil: gerar postos de trabalho e geração de impostos municipal, estadual e federal. Só assim eu poderia me sentir realizado como empreendedor e como cidadão baiano e brasileiro, que era projetar e gerar não só empregos e postos de trabalho, mas também gerar impostos, gerar condição para a manutenção da minha comunidade. Isso eu fiz sem pestanejar, com um foco muito definido na minha vida.

Tribuna: Como o senhor compara o cenário econômico da época em que começou com o de hoje? Era mais fácil ou difícil para o empreendedor?

Luiz Mendonça: Eu digo que cada época tem as suas circunstâncias. Eu acho que o que pode mudar essas circunstâncias é a decisão que o cidadão tem em mente. E eu tinha uma decisão: desistir nunca. Isso eu nunca considerei como palavra na minha vida, que era desistência. E eu tinha objetivo. Eu queria geração de emprego, geração de trabalho e geração de impostos para financiar a comunidade que eu pertencia e que eu pertenço até hoje. Se eu não fizesse isso, eu não me sentia realizado como cidadão, como ser humano, baiano e brasileiro.

Tribuna: Apesar de nunca considerar a desistência, o senhor já sentiu medo diante de decisões importantes? Como o senhor lidou com isso?

Luiz Mendonça: Lidei assim, dizendo: você não pode desistir. Esse projeto não é seu. Esse projeto você concebeu para a sua comunidade, para o seu estado, para o seu país. Ele já não lhe pertence. Então, você não pode desistir de uma coisa que não é sua. Você apenas criou o projeto, mas o projeto já não é mais seu. O projeto é da comunidade. Você tem obrigação com essa comunidade. Isso daí eu tinha a resposta para nunca desistir e sempre perseverar.

Tribuna: Como o senhor avalia hoje as condições de acesso ao crédito e financiamento para empresários no Brasil?

Luiz Mendonça: Isso sempre é difícil, seja na minha época, quando eu comecei, seja hoje. Mas eu considero até que hoje é mais fácil, porque hoje as ferramentas que nós temos são tecnologias muito avançadas. Eu, quando comecei, não tinha computador, não tinha internet. Então, você imagine como é que eu pude construir o que eu construí sem computador e sem internet. E eu não me queixei com o destino. Se eu fosse me queixar, não faria nada. Me queixar, nunca. Eu tinha que fazer. Porque, como eu disse, o projeto já não era mais meu. De meu, só teve a iniciativa, a ideia e a vontade de realizar. Mas já não era meu. Não me pertencia, como não me pertence hoje.

Tribuna: Qual o papel da inovação para manter a competitividade no cenário econômico instável como é no Brasil?

Luiz Mendonça: Esse é o grande desafio do empreendedor. Hoje nós temos bastante tecnologia e também faculdades que nós não tínhamos. Naquela época, só existiam duas faculdades, a Católica e a Federal. Hoje, temos mais de dez. Isso faz com que haja mais técnicos, estudantes e pessoas com vontade de crescer e se desenvolver. Hoje é mais fácil começar a vida como empreendedor do que quando eu comecei. Na época, as ferramentas eram poucas e pequenas. Então tudo era mais difícil. Amanhã, para meus netos, será ainda mais fácil. Isso nunca me inibiu de nada, pelo contrário, sempre foi um desafio prazeroso. Como sempre gostei de desafio, isso para mim era uma ferramenta prazerosíssima de trabalhar.

Tribuna: Como equilibrar o êxito econômico com a responsabilidade social?

Luiz Mendonça: O empreendedor não pode diminuir essa balança. Essa balança tem que ter um prato para a sociedade e um prato para o desenvolvimento econômico. O desenvolvimento é que gera emprego e todas as forças que acontecem. Sem o empreendedor, você não tem desenvolvimento e o país estaria parado. Eu jamais imagino a minha Bahia parada. Eu sou um soldado da minha Bahia e do meu Brasil. Quero desenvolver e garantir que meus netos tenham mais ferramentas do que eu tive.

Tribuna:   O Brasil enfrenta entraves históricos para investimentos, como as questões ligadas à infraestrutura e burocracia. O que precisa mudar de imediato para destravar o crescimento econômico no país?

Luiz Mendonça: Educação e conhecimento. Precisamos melhorar o nível das faculdades e das tecnologias. O resto do mundo não está parado. Você encontra países com desenvolvimentos tecnológicos mais importantes que o Brasil. É um trabalho que eu tenho e meus colegas empreendedores têm: não podemos deixar a Bahia e o Brasil para trás em relação aos outros países.

Tribuna: Qual o papel do poder público no desenvolvimento econômico do país e no apoio aos empresários?

Luiz Mendonça: Basta que o Estado não se meta na área empresarial. Toda vez que se mete, geralmente não dá um bom processo. Eles não têm a aptidão do empreendedor. O empreendedor não para. É uma pessoa que precisa desenvolver, não só para ele, mas também o município, o estado, o país e o mundo.

Tribuna: Estamos em um cenário polarizado. O senhor ao longo da carreira conversou com atores políticos?

Luiz Mendonça: Não me limito a isso, não. Converso, sim. Tenho a oportunidade de conversar com atores políticos. É importante para nós empreendedores trocar ideias e mostrar demandas. Nós podemos ser portadores do pensamento político e governamental. Quem faz o desenvolvimento do país somos nós, os empreendedores. Somos nós que geramos empregos, impostos… Sem nós, você não teria o país.

Tribuna: Esse cenário de polarização política afeta a economia?

Luiz Mendonça: Não acho que afete, não. Acho até que pelo contrário. É salutar discutir modelos incorporados por esses empreendedores, no sentido de desenvolver. Cada empreendedor que tiver conceitos ou projetos melhores do que A, B ou C, é importante para as comunidades onde eles estão inseridos. Eu me sinto obrigado a contribuir com esse desenvolvimento. Eu sempre me pergunto o que estou fazendo para minha comunidade. Esses questionamentos são um dilema para os próprios empreendedores e eu sempre estou diante desse dilema: de qual é o melhor projeto que eu poderia tentar desenvolver para o enriquecimento da minha comunidade. Tenho compromisso com Salvador, com a Bahia e com o Brasil. E eu vou fazer de tudo, para ao longo da minha caminhada, ter um legado a deixar para meus netos e netas.

Tribuna: O Brasil hoje tem uma alta taxa de juros, que tem gerado muitas reclamações por parte do setor produtivo. Como é que o senhor enxerga essa questão? Isso tem afetado os negócios, não só os seus, mas também, na sua avaliação, os dos seus colegas empresários?

Luiz Mendonça: Isso hoje é uma dificuldade raríssima. É raríssimo no mundo um país que possa se manter com uma taxa de juros tão elevada como essa. Nós temos uma inflação ao redor de 4% e nós temos uma taxa básica de juros de 15%. Só que, com o spread, o mínimo de spread que um banco bota em cima desses 15%, que é a taxa básica, é 4%, 5%, chegando a 19%, 20%.
Poxa, para um empreendedor pagar de juros 20%, 21%, 22%, ainda gerar emprego, ainda ganhar dinheiro para continuar crescendo e continuar gerando postos de trabalho, é um desafio de Hércules. E é esse desafio que eu faço todos os dias, mas eu faço em nome dos meus netos, em nome do meu legado que eu preciso deixar aqui nesse mundo. Se eu não tiver essa coragem, eu não vou deixar legado.

Tribuna: A gente está em um ano eleitoral e, como sempre, é um momento que gera algum sentimento de esperança por parte dos brasileiros. Qual é o seu sentimento e o que o senhor espera para o futuro do país nos próximos anos?

Luiz Mendonça: Olha, eu tenho muita esperança de que o governo tome a posição de uma diminuição dessa taxa de juros. Eu acho que hoje o fator mais difícil de ser repensado é exatamente o problema da taxa de juros. Mas, mesmo assim, nós empreendedores continuamos gerando, continuamos crescendo o PIB da Bahia, o PIB do Brasil, mesmo com essa taxa de juros.
Mas ela podia ser muito melhor. O Brasil poderia estar muito melhor, a Bahia poderia estar muito melhor se nós tivéssemos uma taxa de juros menos forte como é atualmente, até porque é uma das maiores do mundo hoje.

Tribuna: E, para finalizar, que conselho o senhor daria para quem está começando a trilhar uma trajetória no empreendedorismo e no mundo empresarial?

Luiz Mendonça: Eu diria que precisa de coragem, determinação e, principalmente, um projeto de vida. Um projeto para sua família, para seus filhos, para seus netos. Um projeto de continuação. Porque nós não podemos fazer nada só por hoje, até amanhã. Não. Nós temos que fazer um projeto para a vida. Isso é muito importante. Eu não vivo trabalhando por um dia, por uma semana ou por um mês, porque eu tenho uma comunidade para zelar. Essa seria a orientação que eu daria a quem está começando como empreendedor: não pensar em si próprio, mas pensar na comunidade em que está inserido. A pergunta é: o que é que eu estou fazendo para a minha comunidade? O que é que eu estou fazendo para as outras famílias que não são a minha? Isso eu me pergunto sempre. E a minha resposta é: faça muito mais, Luiz Mendonça, do que o que você está fazendo. Porque tem muita gente precisando de você. E eu não vou parar. Eu vou continuar.

Tribuna da Bahia

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