
Em um cenário ainda marcado por desigualdades e invisibilidade, a educação do campo e, em especial, as classes multisseriadas aquelas que reúnem alunos de diferentes séries em uma única sala vêm sendo cada vez mais discutidas e valorizadas como instrumento de transformação social e desenvolvimento regional. Em evento promovido pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), especialistas, estudantes, movimentos sociais e professores se reuniram para debater os desafios e avanços dessa modalidade de ensino.
Segundo os organizadores, discutir as classes multisseriadas é discutir a educação de meninas, meninos, jovens, homens e mulheres do campo, que historicamente enfrentam a negligência do Estado. “Essas classes surgiram como resultado do descaso, mas foram transformadas em experiências exitosas por professores, estudantes e gestores”, afirmou a professora Kiki Givigi.
A prática multisseriada, comum em áreas rurais onde a baixa densidade populacional dificulta a oferta de turmas seriadas, é frequentemente estigmatizada. No entanto, como lembrado durante o encontro, em países desenvolvidos essa é uma proposta oficial de educação estatal, valorizando o vínculo entre aluno, território e cultura local.
UFRB: pioneirismo e protagonismo
A UFRB destacou-se por sediar o primeiro mestrado em Educação do Campo do país, além de oferecer especializações voltadas à realidade rural. “Formar professores e gestores para atuarem no campo é reconhecer que existe um conhecimento específico e necessário, que parte das vivências camponesas”, explicou uma das docentes da universidade.
A proposta vai além da sala de aula. O evento reforçou que a educação do campo deve considerar os saberes culturais, o trabalho comunitário, as práticas agrícolas e o pertencimento territorial. “Desenvolver o campo é também desenvolver a cidade. Essa separação entre Brasil urbano e rural só serve a interesses políticos que excluem populações inteiras”, pontuou.
Fechamento de escolas: impacto profundo nas comunidades
Um dos pontos mais alarmantes debatidos foi o fechamento e a paralisação de escolas do campo. Mesmo em um Brasil com vasto território rural, o número de instituições encerradas ou inativas cresce, forçando famílias a deslocarem-se para cidades vizinhas. “Isso gera sobrecarga especialmente para as mulheres, que acumulam funções domésticas, produtivas e agora também educacionais”, alertou a professora.
O fechamento de escolas compromete não só o acesso à educação, mas também a vida comunitária rural. Os espaços escolares funcionam como centros de convivência, cultura e identidade. Sua ausência enfraquece tradições como festas, práticas religiosas, rodas de capoeira e torneios de futebol, afastando os jovens e desestruturando laços familiares.
Políticas públicas e futuro
Além de formação, a UFRB e seus parceiros defendem a criação de concursos públicos específicos para licenciados em Educação do Campo, garantindo que os profissionais formados possam atuar diretamente nas comunidades que conhecem e representam. “O conhecimento precisa sair da universidade e alcançar o campo, senão continuamos produzindo teorias abstratas que não transformam realidades”, afirmou uma das pesquisadoras presentes.
O evento também abriu espaço para divulgação do próximo processo seletivo do mestrado em Educação do Campo, reforçando a importância da formação continuada para lideranças sociais e educadores do meio rural.
Conclusão
O encontro realizado em Amargosa reafirmou que a educação do campo é mais do que uma pauta educacional é uma questão de justiça social, de democracia e de soberania popular. A luta por escolas abertas, políticas públicas sensíveis e conhecimento valorizado é, sobretudo, uma luta pela permanência e dignidade das populações rurais.

