
Em uma entrevista histórica concedida ao Criativa Entrevista, da Criativa Online, o bispo emérito da Diocese de Amargosa, Dom João Nilton, conduziu o público por uma verdadeira aula de memória, fé e identidade regional. Com serenidade e riqueza de detalhes, ele relembrou a criação da Diocese de Amargosa, os desafios enfrentados ao longo das décadas e sua própria trajetória sacerdotal, profundamente entrelaçada com a história da Igreja Católica no Vale do Jiquiriçá e em grande parte do interior da Bahia.
Dom João explicou que, até o início do século XX, o estado da Bahia possuía apenas cinco dioceses, todas com extensões territoriais muito amplas, o que dificultava a assistência religiosa às comunidades do interior. Diante dessa realidade, surgiu a necessidade de criar novas dioceses. A partir de um movimento liderado pelo então vigário de Amargosa, padre Antônio José de Almeida, e com forte mobilização da sociedade local — envolvendo comerciantes, autoridades civis, professores, artistas e trabalhadores —, Amargosa se destacou como candidata a sediar uma nova diocese. O empenho coletivo foi decisivo para que, em maio de 1941, fosse oficialmente criada a Diocese de Amargosa, a sexta do estado da Bahia.
A nova diocese nasceu com uma extensão territorial imensa, indo do litoral, em Jaguaripe, até áreas próximas à divisa com Minas Gerais, incluindo regiões que hoje pertencem a outras dioceses, como Vitória da Conquista e Jequié. Dom João destacou os enormes desafios enfrentados pelos primeiros bispos, que precisavam percorrer longas distâncias em um período em que não havia estradas asfaltadas nem os meios de transporte atuais, tornando a missão pastoral ainda mais exigente.

Durante a entrevista, o bispo emérito também contextualizou o cenário econômico da época da criação da diocese. Amargosa vivia um período de forte atividade econômica, impulsionada principalmente pela produção e beneficiamento do café e do fumo. Grandes armazéns, usinas e prédios históricos, muitos dos quais ainda existem, testemunham essa fase de prosperidade. Com o declínio dessas culturas, a região enfrentou dificuldades, mas conseguiu se reinventar, com destaque para a pecuária e, mais recentemente, o cultivo do cacau em algumas localidades.
Outro ponto de destaque foi a história da Catedral de Nossa Senhora do Bom Conselho. Dom João relembrou que a antiga matriz ficava na atual Praça do Cristo, mas, devido às condições estruturais e ao crescimento da cidade, foi necessária a construção de um novo templo. A obra teve início no final do século XIX, passou por interrupções e só foi concluída em 1936, sendo elevada à condição de catedral em 1941, com a criação da diocese.
Na dimensão pessoal, Dom João Nilton compartilhou sua caminhada vocacional. Nascido em Amargosa, ingressou ainda jovem no seminário menor da cidade, seguiu os estudos em Salvador e foi ordenado sacerdote em 20 de dezembro de 1969, em sua terra natal. Em 1986, após um período que descreveu como um dos mais difíceis de sua vida, aceitou a missão episcopal. Atuou inicialmente como bispo coadjutor na Diocese de Bom Jesus da Lapa e, em 1988, assumiu como bispo da Diocese de Amargosa, cargo que exerceu por quase 27 anos.
Em 2015, aos 71 anos, Dom João apresentou sua renúncia à administração diocesana, aceita pelo Papa Francisco. Desde então, vive como bispo emérito em Amargosa, sem funções administrativas, mas sempre disponível para colaborar pastoralmente, participar de celebrações e acompanhar a vida da Igreja local, respeitando seus limites de saúde e idade.
A entrevista também abordou a importância e os desafios da preservação do patrimônio histórico religioso. Dom João manifestou preocupação com o estado de conservação de igrejas centenárias, como as de Jaguaripe, Nazaré e Cairu, muitas delas tombadas pelo patrimônio histórico, mas que enfrentam dificuldades para manutenção e restauração adequada. Para ele, esses templos não são apenas espaços de fé, mas também símbolos culturais e históricos que contam a história da região e do povo baiano.
Ao final da conversa, Dom João Nilton deixou uma mensagem marcada pela gratidão e pelo compromisso com a memória e a missão da Igreja. Sua fala reforçou a importância de conhecer o passado para compreender o presente e projetar o futuro da Diocese de Amargosa, que segue como referência religiosa, histórica e cultural para toda a região.
