
Em meio ao clima de construção coletiva e valorização da educação do campo, o 1º Seminário da Rede Multi, sediado na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), tem proporcionado momentos marcantes para a história da educação no Brasil. Um desses momentos foi o depoimento da professora e mestranda Daiane Sampaio Alves, que participou da programação compartilhando sua história de vida, resistência e compromisso com a transformação social.
Nascida e criada no campo, filha de pais agricultores e semianalfabetos, Daiane viveu desde cedo os desafios da exclusão educacional. “Na minha comunidade não havia escola. Com sete anos, precisei me mudar para morar com minha tia em outra localidade para poder estudar. Depois, fui para a cidade e percebi uma realidade dura: a desigualdade entre quem vem do campo e quem nasce no espaço urbano”, relatou.
Sua trajetória é marcada por persistência. Formada em Pedagogia pela UFRB, Daiane passou pela educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, primeiro em escolas privadas, depois na rede pública. Mesmo com todas as dificuldades, não parou por aí. Fez especialização e atualmente cursa o Mestrado Profissional em Educação do Campo (PPGECAMPO) na UFRB, com bolsa da FAPESB. Sua pesquisa aborda as relações entre as novas tecnologias e a educação do campo, especialmente a partir das experiências vividas durante a pandemia da COVID-19.
“Durante a pandemia, tivemos que lidar com a inserção das tecnologias em um cenário de pouca formação e poucos recursos. Isso me inquietou. Vim ao mestrado buscar respostas — ou ao menos entendimentos para ajudar minha comunidade a avançar”, afirmou.
Além de pesquisadora, Daiane é também representante estudantil no programa de pós-graduação e integrou a comissão organizadora do seminário, atuando ativamente na condução do evento. “Desde sexta-feira estamos aqui, organizando tudo com muito carinho. É cansativo, mas muito gratificante. E já nos preparamos para o Seminário Nacional”, contou, emocionada.
Durante o bate-papo com a Criativa On Line, ela refletiu também sobre o tema central do evento as classes multisseriadas, reconhecendo que, mesmo atuando em classes seriadas, a diversidade de ritmos e necessidades dos estudantes exige abordagens diferenciadas. “Não existem classes homogêneas. Mesmo nas turmas seriadas, cada aluno tem seu tempo, e esse tempo precisa ser respeitado.”
Ela também destacou a importância do apoio institucional e humano recebido ao longo da caminhada, especialmente de nomes como Fábio e Tércia, coordenadores do programa e grandes incentivadores da formação de novos educadores do campo. “Eles são pessoas incríveis, que confiam em nós e nos fortalecem. É isso que nos une e nos move.”
O depoimento de Daiane Sampaio se tornou um dos momentos mais inspiradores do seminário, ao representar tantas outras vozes do campo que, como ela, desafiaram as estatísticas para ocupar espaços de formação, luta e protagonismo. “Estou aqui representando minha comunidade, meus ancestrais, meus pais e todos aqueles que sonharam com esse momento. E eu sigo, com os pés no chão e o coração cheio de esperança.”

