Esportes

Classificada para Tóquio faz campanha para alunos acessarem internet

Agência Brasil

“O esporte me transformou como pessoa, me deu muito mais do que uma medalha”. O depoimento de Aline Silva à Agência Brasil não é exagero. A vida da garota de infância humilde, que chegou a ficar em coma alcoólico aos 11 anos, começou a mudar quando conheceu o judô. A reviravolta completa veio, de vez, em outro tatame: o de wrestling (luta olímpica) A paulista de 33 anos, criada sozinha pela mãe, referência para a atleta, sagrou-se vice-campeã mundial na modalidade, em 2014, e foi três vezes ao pódio em Jogos Pan-Americanos, com duas pratas e um bronze.

“O rendimento foi consequência. Com o esporte, ganhei o mundo. Visitei mais de 30 países, falo inglês fluente por causa do esporte. Ele me abriu uma visão de mundo que eu não teria condições de ter sem ter dinheiro para viajar. O próprio projeto social é uma conquista, também”, destaca Aline.

O projeto a que ela se refere é o Mempodera, criado em 2018 em Cubatão, cidade paulista onde a lutadora mora e treina. A iniciativa atende a mais de 80 jovens de 6 a 15 anos, com aulas de wrestling e inglês. “Uma das missões [do projeto] é empoderar meninas por meio do esporte, promovendo a igualdade de gênero. No primeiro ano, a gente começou só com meninas. Quando vimos que a turma de meninas já estava consolidada, no segundo ano começamos a aceitar meninos”, detalha a atleta, que desenvolveu a ideia – já antiga – no Global Sports Mentoring Program (GSMP), em 2017. Esse programa incentiva mulheres inspiradoras a criarem planos de ação que empoderem garotas a partir do esporte.

A pandemia do novo coronavírus (covid-19) paralisou as atividades presenciais do Mempodera, realizadas em uma escola pública no bairro Jardim Nova República, área de alta vulnerabilidade social em Cubatão. Durante a pandemia algumas crianças conseguiram continuar virtualmente no projeto, mas a maioria está ausente. O motivo? Acesso limitado à internet.

Por isso, o projeto iniciou uma campanha online para compra de dados móveis, para que os jovens consigam acompanhar as aulas. “Temos 86 crianças e só seis estavam fazendo aula na quarentena. Uma das alunas explicou que estava ausente porque não tinha internet. Nisso, outra aluna disse que conseguiria rotear [os dados] do celular dela pela janela de casa. Foi quando a ficha caiu”, diz Aline. “O escopo [da campanha] prevê pagar a internet e o excedente vai ajudar às famílias, que é algo que a gente está fazendo, com alimento, higiene, o que a gente vê de maior necessidade”, esclarece. 

Em paralelo, a lutadora busca telefones celulares para as crianças terem como assistir ás atividades. “Eu comecei a pedir na minha rede social, vou disparar alguns documentos para parceiros, pedindo às pessoas que têm um celular que não é utilizado, não tem mais valor de venda ou que, ao invés de vender, podem fazer o bem a alguém que não tem esse acesso, para doarem. Aí a gente manda um vídeo de volta, da criança que recebeu o celular, agradecendo”, descreve.

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