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Busca por engajamento no Instagram aumenta pressão sobre criadores de conteúdo

Crescimento dos Reels e exigência de constância colocam profissionais da creator economy diante de um cenário de cobrança permanente, com reflexos na saúde mental e nas estratégias de visibilidade

Em uma manhã comum em Salvador, um criador de conteúdo abre o aplicativo do Instagram antes mesmo de levantar da cama. A primeira tela mostra o desempenho do Reels publicado na noite anterior.

O número de visualizações está abaixo da média da semana. A rotina começa por aí, e raramente termina antes da meia-noite. O cenário se repete em milhares de quartos pelo país, e desenha um retrato preciso da economia dos criadores em 2026: produção contínua, comparação permanente e dependência das métricas exibidas pelo algoritmo.

O modelo de negócios das redes sociais mudou. A entrega de conteúdo passou a depender quase integralmente de vídeos curtos, e o Instagram acompanhou esse movimento com o Reels, formato que se tornou prioritário tanto para a plataforma quanto para quem produz.

Segundo o relatório “State of Social” da Comscore, o engajamento com Reels no Brasil cresceu 49% entre 2023 e 2024, em um contexto em que 8,6 em cada 10 usuários latino-americanos acessam redes sociais com regularidade.

O brasileiro passa, em média, 48 horas por mês conectado a essas plataformas, o que reforça o peso comercial e cultural desse universo.

A nova régua é a visualização

Antes, a métrica que organizava a vida dos criadores era o número de seguidores. Hoje, a régua mudou. O algoritmo do Instagram em 2026 trabalha com quatro variáveis principais: atividade do usuário, histórico de interação com o criador, qualidade do conteúdo e popularidade prévia do perfil.

Tudo gira em torno da capacidade de prender atenção nos primeiros segundos. Um Reels que não retém público nas primeiras horas perde alcance rapidamente, e quase não há como recuperar.

Esse arranjo gerou uma corrida silenciosa. Criadores passaram a publicar mais vezes por semana, testar formatos diferentes no mesmo dia e estudar com obsessão os horários de pico, que no Brasil se concentram entre 11h e 14h e entre 18h e 21h, segundo o mapa de calor da Comscore divulgado em 2025.

A produção virou um trabalho de jornada estendida, com etapas de roteiro, gravação, edição, legendagem e resposta a comentários se acumulando sobre uma única pessoa.

A Comscore aponta ainda que criadores de conteúdo concentram 36% das interações nas redes sociais em 2025, e isso transformou a influência em ativo econômico.

Em 2024, o mercado brasileiro destinou R$ 37,9 bilhões à mídia digital, e mais da metade desse valor foi direcionado a redes sociais e parcerias com criadores. O lado comercial está consolidado. O lado humano, nem tanto.

Burnout entrou no vocabulário do setor

A pesquisa Creator Report 2025, feita pela Manychat, mostrou que 51% dos criadores de conteúdo já pensaram em desistir da carreira. O índice sobe para 55% entre profissionais da Geração Z.

O levantamento global da agência Billion Dollar Boy, com mil influenciadores e mil profissionais de marketing, revelou que 52% dos produtores enfrentam burnout, e 37% cogitaram abandonar a profissão. As causas mais citadas foram fadiga criativa (40%), carga excessiva de trabalho (31%) e tempo prolongado diante das telas (27%).

No estudo Creators e Negócios 2025 da YouPix, 53% dos influenciadores brasileiros relataram ter sofrido burnout em algum momento, com incidência maior entre criadores que ganham até R$ 2 mil mensais.

O dado expõe um descompasso: a economia da influência cresceu 30% nos últimos doze meses, segundo pesquisa da FGV Comunicação Rio em parceria com a Hotmart, e gerou cerca de 390 mil ocupações diretas e indiretas no Brasil, mas a maior parte desses profissionais ainda vive uma rotina financeiramente instável.

O custo emocional não é abstrato. Psicólogos que acompanham profissionais do setor descrevem um quadro recorrente: o criador deixa de separar tempo de descanso do tempo de trabalho porque cada momento da vida pode virar conteúdo.

A imagem pessoal se confunde com o produto vendido. Quando o engajamento cai, a sensação é a de que o próprio valor pessoal foi rebaixado pelo algoritmo.

Estratégias para acelerar o alcance

Diante dessa pressão, parte dos criadores recorre a recursos de impulsionamento para sustentar a visibilidade exigida pelas marcas e pelas plataformas.

A opção de comprar visualizações para o reels do Instagram tornou-se uma prática conhecida entre quem precisa atingir parâmetros mínimos de entrega em campanhas pagas, especialmente quando os contratos estabelecem metas numéricas de exibição em prazos curtos.

A lógica é prática: o algoritmo tende a distribuir mais conteúdo que já apresenta tração inicial, e isso cria um ciclo em que o impulso inicial acaba pesando mais do que a qualidade isolada do vídeo.

Esse tipo de estratégia divide opiniões no setor. Há quem defenda que se trata de um recurso legítimo de marketing, comparável ao impulsionamento pago oficial das plataformas.

Há também quem aponte os limites éticos da prática, especialmente quando o número inflado é usado para negociar valores publicitários com anunciantes. O fato é que o uso desses serviços cresceu junto com a profissionalização do mercado, e hoje compõe uma parte do planejamento de quem trata o perfil como negócio.

A coordenadora de Creator Economy do Sebrae Nacional, Janaína Camilo, descreveu o atual momento em entrevista à Agência Sebrae de Notícias durante o evento Influencia Brasil, realizado em Salvador em outubro de 2025.

Para ela, a economia criativa ressignificou a forma como marcas, consumidores e criadores se relacionam, colocando autenticidade e conexão humana no centro das estratégias.

O evento reuniu mais de 100 participantes na capital baiana e teve foco em aproximar pequenas empresas de produtores de conteúdo locais, em um movimento que vem ganhando força no Nordeste.

O peso da prova social

Outra camada do problema é a chamada prova social, conceito que descreve o comportamento do usuário ao avaliar um perfil pelos números visíveis antes mesmo de consumir o conteúdo.

Um Reels com poucas curtidas tende a passar despercebido. Um perfil com baixa interação afasta tanto seguidores potenciais quanto marcas interessadas em parcerias. Isso transformou métricas em moeda de credibilidade.

Por isso, recorrer a serviços para comprar curtidas baratas virou parte do repertório de criadores que estão começando ou que precisam recuperar perfis que perderam alcance.

A discussão sobre essa prática tem sido pública, e os próprios criadores reconhecem que a pressão por números cria um ambiente em que poucos resistem ao impulso de buscar atalhos.

O caso ficou ainda mais evidente quando estudos como o da agência Billion Dollar Boy apontaram que, entre os profissionais que sofrem com burnout, 55% indicam a instabilidade financeira como o fator de maior peso.

Em outras palavras, a fragilidade econômica empurra criadores para soluções que prometem resultado rápido, mesmo quando essas soluções entram em zona cinzenta.

Em Salvador, a cena de creator economy local tem crescido com força. O publicitário Caio Costa, que mantém o perfil A Vida em Salvador, descreveu em entrevista ao jornal A Tarde como uma única recomendação sua pode lotar restaurantes por finais de semana seguidos.

O fenômeno mostra o poder real desses perfis, mas também o tamanho da responsabilidade que recai sobre eles. Cada postagem tem consequência comercial direta para terceiros, o que aumenta a expectativa sobre cada publicação.

A profissionalização e o que vem depois

A maturidade do mercado começa a impor outra exigência: profissionalização. Criadores que tratam o perfil como empresa, com calendário editorial estruturado, separação de funções e contabilidade organizada, conseguem reduzir parte da pressão individual.

Marcas e agências baianas como o Grupo Vazk, organizador do evento Café com Influência em Salvador, têm conduzido encontros com influenciadores e empreendedores para debater como a influência digital pode se converter em legado econômico de longo prazo, em vez de carreira curta sustentada por picos virais.

A discussão também envolve diversificação. Especialistas têm orientado criadores a depender menos de uma única plataforma, ampliar fontes de receita e construir produtos próprios em paralelo à publicação de conteúdo.

Quem vive apenas de visualizações está exposto ao humor do algoritmo, que muda sem aviso prévio e pode reduzir o alcance de um perfil em poucas semanas. Em 2023, a Meta deixou de pagar criadores diretamente pelas publicações no Reels, decisão que reorganizou o mercado e empurrou parte dos produtores a buscar contratos publicitários mais consistentes.

Ao mesmo tempo, há um movimento de retorno ao mercado formal. Pesquisas recentes mostram criadores que decidiram voltar à carteira assinada após anos vivendo da renda das redes, em busca de previsibilidade financeira e benefícios estruturados.

A volta ao emprego tradicional não significa fracasso, mas redefinição. Profissionais que passaram pela economia da influência levam habilidades raras para empresas, como gestão de comunidade, storytelling e leitura de dados de comportamento.

O que muda daqui para frente

A creator economy brasileira está em ponto de inflexão. Continua crescendo, segue gerando renda e oportunidades em cidades como Salvador, Recife e Fortaleza, mas começa a debater abertamente seus próprios limites.

A pressão por engajamento não vai desaparecer. O algoritmo continuará premiando frequência, retenção e novidade. O que pode mudar é a forma como os criadores se organizam para sustentar uma carreira longa nesse ambiente.

Há sinais de amadurecimento. Eventos focados em saúde mental do criador começam a aparecer no calendário do setor. Estudos como os da YouPix, Manychat e Comscore têm pressionado plataformas e marcas a olhar para o lado humano da equação. A Geração Z, que entra no mercado já consciente do problema, tem cobrado modelos de trabalho com mais equilíbrio.

Para quem produz conteúdo, a recomendação que mais aparece nas pesquisas é a mesma: tratar o perfil como negócio, separar tempo de descanso, diversificar receita e olhar com cuidado para qualquer métrica que se confunda com autoestima.

Para as marcas, o caminho é construir parcerias mais longas, com prazos realistas e remuneração compatível com o trabalho real envolvido. Para o público, vale lembrar que por trás de cada Reels com milhões de visualizações existe uma pessoa que dormiu pouco e acordou checando números.

Ivanildo Bastos

Ivanildo Bastos é comunicador, radialista e locutor, atualmente cursando Jornalismo. Licenciado em Biologia, atua como repórter da Criativa On Line há 22 anos, destacando-se pela experiência, dedicação e compromisso com a informação de qualidade.

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