
O julgamento de Bruno Henrique, atacante do Flamengo, expõe um problema que o Brasil teima em ignorar: quando o réu é famoso, a Justiça muda de tom. E todo mundo percebe.
Não se trata de discutir tecnicalidades jurídicas, isso fica para os advogados. O que está em jogo é a mensagem que esse tipo de processo envia para a sociedade. E a mensagem é desastrosa: se você tem nome, torcida e câmera apontada, a lei pesa menos.
Para muitos jovens que olham para o Flamengo como um grande time, o que vem acontecendo é, no mínimo, um recado bem equivocado. Primeiro, o caso do Ninho do Urubu, onde vidas de jovens foram perdidas e até hoje a sensação é de que o clube fez muito menos do que deveria. Agora, o episódio envolvendo Bruno Henrique, que parece reforçar a ideia de que, quando o erro vem de alguém famoso ou de um gigante como o Flamengo, as consequências são sempre mais leves.
E o futebol amplifica tudo isso. Não é só entretenimento, é formação de caráter, construção de valores. O exemplo que vem de campo chega com mais força nas periferias do que qualquer campanha do governo ou discurso de escola. Quando a Justiça titubeia diante de um ídolo, ela ensina pelo exemplo errado: há privilégios invisíveis para quem tem holofote.
Justiça não precisa ser vingativa. Mas precisa ser firme e coerente, especialmente quando o Brasil inteiro está assistindo. Porque nesses momentos ela não está julgando apenas uma pessoa. Está julgando a si mesma. Está ensinando o que é certo e o que é tolerável.
E, até agora, a lição que fica é a pior possível: no Brasil, a lei muda de tamanho conforme o tamanho da sua fama. Para uns, rigor. Para outros, condescendência. O critério? Não é a gravidade do ato. É o alcance do nome.
Nesse jogo entre ídolos e instituições, quem sai derrotada é a sociedade. E a próxima geração cresce acreditando que, no fundo, o sistema é só mais um adversário a ser driblado, não uma regra a ser respeitada.
Por Dr. Reinaldo Lemos – Advogado
