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Aumento das tensões entre casais e os cuidados com a saúde mental na pandemia

Pesquisas apontam para aumento do número de homicídios e feminicídios na quarentena e psiquiatra alerta sobre o tensionamento das relações

As consequências da pandemia da COVID-19 impactam no dia a dia das famílias e no aumento das tensões domésticas. Crimes envolvendo casais têm sido registrados com certa frequência na quarentena e um cenário alarmante chama a atenção: o de vidas atingidas não pelo contágio do vírus em si, mas pela violência dentro de casa em tempos de isolamento social.  

Para a psiquiatra Paula Dione, da clínica Holiste, fatores como a redução salarial das famílias, a suspensão de atividades laborais, o confinamento, as mudanças na rotina, a imprevisibilidade, a restrição ao lazer, a reconfiguração do trabalho e imposições, em alguns casos sem a sensação de escolha ou planejamento, contribuíram para a sobrecarga emocional e o acirramento das tensões nas relações interpessoais e familiares. Este contexto se reflete em dados preocupantes, como o crescimento dos casos de violência doméstica.  

Quando o “ficar em casa” se torna imperativo, em função de um quadro de saúde pública, e a residência está longe de ser sinônimo de proteção e segurança, o que fazer para evitar o risco? “Vários países chegaram a publicar notas e começaram a pensar estruturas possíveis de defesa da mulher ou da pessoa vulnerável”, aponta a médica, que alerta ainda para a importância da criação de redes de apoio no contexto da quarentena.  

Violência na pandemia  

Os casos de homicídio e feminicídio (seguidos, por vezes, de suicídio) cresceram na pandemia e as mulheres continuam sendo as vítimas mais frequentes. No Brasil, entre março e abril do último ano, o feminicídio aumentou 22% em 12 estados, segundo dados do Fórum de Segurança Pública. A Bahia ocupa a terceira colocação em número de feminicídios – aponta o Monitor da Violência. Só no primeiro semestre de 2020, 57 mulheres foram mortas no estado – o que corresponde a uma alta de 18,75% em relação ao mesmo período do ano anterior.   

De acordo com especialistas, a proximidade entre vítimas e agressores e a maior dificuldade de realizar as denúncias (frente às restrições e medidas de isolamento provocadas pela expansão da COVID-19) podem ter influência no crescimento dos delitos cometidos dentro de casa, como agressões, abuso e assassinatos. Em âmbito global, o chefe da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, chegou a pedir em abril de 2020 que países adotassem medidas de combate ao crescimento da violência doméstica.  

Crime x isolamento  

Casos como o da mulher de 39 anos que foi baleada pelo ex-companheiro (que em seguida se suicidou), em dezembro do ano passado, no Parque Júlio César, na Pituba, e o do casal encontrado morto em janeiro deste ano, no Horto Florestal, cujas investigações preliminares indicaram homicídio seguido de suicídio, reacenderam os debates e reflexões sobre o agravamento das tensões decorrentes do isolamento social.  

De acordo com a psiquiatra Paula Dione, além de aspectos sociais, estruturais, históricos e culturais que envolvem também desigualdade de gênero, por exemplo, a convivência intensa, muitas vezes fruto da adaptação às medidas sanitárias para frear a propagação do vírus, pode acentuar os desafios quando o assunto é violência.   

“O fato de ter um tempo de convivência maior faz com que apareçam mais questões que poderiam estar ali guardadas, ocultas. Então, começam a aparecer mais desconfortos, as divergências. Se você não tiver uma estrutura de como lidar com essas divergências de opinião, de forma de conduzir as coisas, isso pode se tornar um problema”, explica a médica, ao citar focos de tensionamento e estresse que podem resultar em brigas e até crimes.  

Saúde mental   

Se, por um lado, o isolamento impôs desafios não apenas na área da saúde pública, economia e educação, com impactos adicionais para o combate à violência doméstica, por outro, ampliou também os espaços de debate sobre cuidados com a saúde mental.   

Profissionais de psiquiatria e psicologia, nesse sentido, podem assumir papel estratégico na prevenção da violência e no contato com pessoas vulneráveis, em tempos de pandemia. “Percebemos um aumento na demanda de atendimentos psicológicos e psiquiátricos. É como se as pessoas se vissem realmente confrontadas com suas questões”, relata Paula Dione, que avalia positivamente a busca por atendimento, embora ressalte que os efeitos da crise não são sentidos de maneira semelhante por todas as pessoas.  

“Pensar sobre o acesso, sobre a relevância de ter um tempo dedicado ao atendimento psicológico, à psicoterapia e a outras formas de manter uma rede de apoio ganhou força, o que eu acho muito importante”, salienta a médica psiquiatra da Holiste. Segundo ela, uma rede efetiva de referência faz a diferença, sobretudo em cenários de instabilidade e/ou dificuldades provocadas pela pandemia.  

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