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A importância da informação e da comunicação na pandemia de coronavírus

Por: João Carlos de Oliveira - Portal Comunica UFU

O ano de 2020 começou de forma diferente em todo o mundo. Especialmente no que diz respeito à pandemia do novo coronavírus, causador da Covid-19. Vários lugares passaram a vivenciar cenários preocupantes, particularmente com os impactos negativos, em diferentes escalas, na saúde e na economia das pessoas e das empresas, frutos de outros problemas estruturais e conjunturais em relação à gestão da Saúde Coletiva.

A pandemia da Covid-19 tomou conta das reportagens, por meio das informações, com certa razão e necessidade, fruto do isolamento, distanciamento social e resolutividade dos impactos. As informações foram e são muito mais em função das práticas necessárias sobre os cuidados (modos corretos de se lavar as mãos e usar as máscaras, pessoas com casos suspeitos e confirmados, mortes, curadas e quantidade de testes). Também na divulgação de dados, foram produzidos mapas, gráficos, tabelas, estudos e pesquisas sobre medidas de cuidados, vacinas, desenvolvimento de tecnologias e equipamentos para cuidados com pessoas hospitalizadas. Ainda são informações com pouco significado de contexto para uma parcela da população, que não tem a menor ideia do que foi dito anteriormente.

Enfim, até então, são informações emitidas pelas diversas mídias (meios de comunicação?). Mas como elas foram recebidas pelas pessoas? Como cada pessoa conseguiu interpretar cada “código” emitido? O “bombardeio” das informações foi e continua sendo enorme. Mas uma parcela da população não tem a menor ideia dos contextos contidos em cada informação divulgada. Muitas vezes, são informações falsas que manipulam as pessoas (fake news). Mas, com o passar do tempo, esperamos, que ocorram os devidos ajustes.

O isolamento e o distanciamento das pessoas em suas casas têm sua importância – vamos chamar de positivo. De um lado, evitam o aumento de circulação, hospitalização e mortes de pessoas, em função da falta de equipamentos, medidas de proteção e até de profissionais. Do outro, estas informações apresentam e representam os seus paradoxos (contradições) – vamos denominar de negativo. Têm impactado a economia e a saúde das pessoas, mas, com as pesquisas e os estudos, ao longo dos tempos, as informações poderão apresentar os (ou outros) resultados. Além de afetar o lado financeiro, também afetaram o lado psicológico, pois já há indicadores do aumento da violência domiciliar (feminicídio), aumento do consumo de bebidas alcoólicas, mas com poucas ações e manifestações das pessoas e dos gestores.

Vamos aguardar, mas sem paralisar os estudos e as pesquisas, pois são eles e elas que podem nos “garantir” a tomada de “decisões” mais “seguras”. Afinal, qual é a importância da informação e da comunicação em tempos de coronavírus, enquanto estratégias da promoção da saúde? Aqui, em especial, por que se preocupar com outros vírus e suas doenças?

Num primeiro momento, uma breve preocupação com a informação que, por si só, não garante que ela vá surtir efeitos positivos e adequados para mudanças de atitudes e de procedimentos, por meio de ações individuais e/ou coletivas. Até porque, a informação, inicialmente, é muito mais individual, de uma pessoa que está preocupada (ou não) com o que vai divulgar. Mas, aos poucos, apresenta “coesão” coletiva, a partir de grupos sociais, e  toma outras dimensões. Vejam o caso das fake news, que em alguns momentos e algumas vezes propagam ou incentivam ações inadequadas e até mesmo perigosas do ponto de vista da saúde das pessoas. 

Por isso, para além da informação, há necessidade de se fazer uma boa comunicação, para que ambas surtam efeitos significativos, de maneira que as pessoas, de forma coletiva, mudem de comportamento e de atitude, para o bem da maioria, a partir de ações que sejam ressignificadas, enquanto estratégias da promoção da saúde.

O isolamento e o afastamento social têm alguns aspectos interessantes e importantes a serem analisados, abordados e apontados para toda a sociedade. Com um tempo maior das pessoas em suas casas com seus familiares, ficam mais sentadas ou “paradas” diantes das TVs assistindo a inúmeras programações nestes últimos dias, muito mais em relação à Covid-19, acomodadas em diferentes ambientes, ouvindo som pelo celular ou outros meios de comunicação.

Estas pessoas estão expostas a alguns arbovírus (mosquitos/vetores), por exemplo, os Aedes (aegypti e albopictus) e Culex, senão outros, com as suas respectivas arboviroses (doenças), como dengue, chikungunya, zika, filariose, febre do Nilo Ocidental, mayaro, rocio, por exemplo. Essas doenças são denominadas de “reemergentes e/ou negligenciadas”. Mas por quê? De acordo com o Ministério da Saúde, “são doenças que não só prevalecem em condições de pobreza, mas também contribuem para a manutenção do quadro de desigualdade, já que representam forte entrave ao desenvolvimento dos países. Como exemplos de doenças negligenciadas, podemos citar: dengue, Chagas, esquistossomose, hanseníase, leishmaniose, malária, tuberculose, entre outras”.

Assim, as pessoas, em suas casas, podem ou poderiam, diante de um conjunto de atitudes e procedimentos (ações), ajudar, ao mesmo tempo, a si próprias, aos seus familiares e à sociedade. Mas, na maioria das vezes, somente com informações!

Por isso, a importância da informação com comunicação. A informação deverá ser mais comunicativa. Mas, o quê, para quem e de que forma? Não acreditamos que exista uma receita pronta. Isso porque a comunicação é (ou deveria ser) um processo que envolve as trocas de “códigos” presentes nas informações entre várias pessoas, ou interlocutores, por meio de mensagens mutuamente entendíveis (decodificadas), ou seja, deve (ou deveria) ser um processo social que permitesse às pessoas interpretar os códigos das mensagens que provocam trocas de saberes e fazeres.

Mas, com certeza, toda aquela informação, com uma melhor comunicação, que tenha sentido, sensibilize e mobilize as pessoas, terá melhores resultados. Não é de um dia para o outro. Na história das doenças, com suas epidemias ou pandemias, tivemos vários exemplos que impactaram a sociedade. Um deles foi a “Revolta da Vacina”, que foi um motim popular ocorrido entre 10 e 16 de novembro de 1904 na cidade do  Rio de Janeiro, então capital do Brasil. O pretexto imediato foi uma lei que determinava a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola, mas também associada a causas mais profundas, como as reformas urbanas que estavam sendo realizadas pelo prefeito Pereira Passos e as campanhas de saneamento lideradas pelo médico Oswaldo Cruz, em especial na eliminação do Aedes aegypti e da febre amarela.

Mas, para este momento atual de pandemia, o que podemos e devemos fazer (ainda informação, vejam), mas que pode representar, aos poucos, estratégias de comunicação:

– Olhar, observar e cuidar com atenção em cada casa (dentro e fora), eliminando e/ou evitando criadouros que acumulam água de forma desnecessária. Neste caso, as vasilhas (bebedouros) de animais, plantas que acumulam água (bromélias), etc. Mas, por que, em especial dentro de casa? Segundo os dados dos Centros de Controle de Zoonoses, por meio de pesquisas larvárias – Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti (LIRAa), mais de 80% dos criadouros estão dentro ou no entorno de nossas residências;

– Evitar muitos contatos, sem proteção (máscaras e limpeza das mãos com água e sabão, ou com uso do álcool em gel), para não apresentar riscos de contágios de algumas doenças, por exemplo, tuberculose;

– Conversar com os seus vizinhos, de forma protegida, sobre estas preocupações (evitar fake news);

– Colaborar com as visitas dos agentes de combates às endemias (ou agentes de controle de zoonoses), que neste momento, em função dos cuidados necessários, também estão em isolamento e afastamento ou com dificuldades de acessos às residências.

Da forma como foi dito, anteriormente, tem muito mais relação com a informação. As pessoas já sabem o que precisa ser feito. Não fazem pela forma “banalizada” das relações midiáticas. Basta ver os casos de dengue em Minas Gerais: de acordo com a Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais em 2019, segundo dados do Sistema de Informação dos Agravos de Notificação (Sinan), 2.986 casos foram classificados como dengue com sinais de alarme e 276 casos foram classificados como dengue grave. Em 2020, até o momento foram notificados 189 casos de dengue com sinais de alarme e 25 casos foram classificados como dengue grave. Quanto aos óbitos, em 2019 foram confirmados 183 óbitos e 64 permanecem em investigação. Em 2020, cinco óbitos pelo agravo foram confirmados. Minas Gerais vivenciou quatro grandes epidemias de dengue em 2010, 2013, 2016 e 2019. Neste ano (2020), até o momento, foram notificados 56.031 casos prováveis registrados.

A maioria dos casos acontece no período do verão, de grande umidade e quente, mas não se pode imputar, apenas, ao clima e nem mesmo aos arbovírus, a causa das doenças negligenciadas, como aparecem nas campanhas (que são muito mais informação) de prevenção veiculadas nos meios de comunicação, ou mesmo outros meio de “combate”, como o famoso “Fumacê – UBV”, que apresenta procedimentos efêmeros, com pouca eficiência e eficácia, matando, na maioria das vezes, apenas os mosquitos alados (adultos). O Fumacê elimina de forma indiscriminada diferentes vetores e até com riscos de contaminação e reações alérgicas das pessoas.

Sabe-se que em períodos de inverno, seco e frio, há uma redução significativa dos números de casos, mas há registros. Isso tem uma relação direta com os estilos e modos de vida das pessoas, que a cada dia que passa estão vivendo em aglomerações humanas e com as condições inadequadas de saneamento ambiental (água, esgoto e resíduos sólidos coletados, tratados e distribuídos). Os arbovírus (mosquitos/vetores) estão mais presentes (domiciliaram) em nossas residências.

Mas, o que isso tem de relação com o coronavírus? As formas como as informações são veiculadas apenas informam, com poucas reflexões. Por isso, necessitamos de outra forma de comunicação da informação, mais dialogada com os diferentes segmentos da sociedade, de forma intersetorial e em redes territoriais.

Sendo assim, entendemos que a comunicação não deve ser vista apenas como transmissão de informações, mas sim como um processo de produção e ressignificação de sentidos sociais, baseada na concepção defendida pelo linguista russo Mikhail Bakthin, que propõe o conceito de “polifonia”, ou seja, que a comunicação não deveria ser vista apenas como a transmissão de informações e, sim, considerada como um processo de produção de sentidos sociais, enquanto relações interculturais.

João Carlos de Oliveira é professor do Mestrado Profissional em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador e da Escola Técnica de Saúde da UFU. É geógrafo e doutor em Geografia. Atua nas áreas de Educação Ambiental, Educação de Jovens e Adultos, Dengue, Resíduos Sólidos, Mobilização Comunitária (Social), Formação Docente Continuada, Vigilância e Educação em Saúde, Geografia da Saúde/Médica.

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