
Com a participação de fazedores de cultura de 21 dos 27 Territórios de Identidade da Bahia, oriundos de mais de 50 municípios, chegou ao fim no último sábado (8), o 3º Fórum Audiovisual dos Interiores. Depois de passar por Vitória da Conquista, em 2023, e por Ipiaú, em abril deste ano, o evento chegou a Iraquara, na Chapada Diamantina, consolidando-se como o principal espaço estadual de discussão e formulação de políticas públicas para o cinema produzido fora dos grandes centros.
Se nas edições anteriores foi estabelecido um amplo diagnóstico das necessidades do setor, aprofundando e detalhando as questões pertinentes a cada uma delas, desta vez, as pautas levantadas pelo Fórum foram transformadas em eixos de atuação, discutidos a partir de grupos de trabalho (GTs) e atividades formativas em formato híbrido.
As discussões, que atravessaram quatro dias de programação, resultaram em um conjunto robusto de propostas para fortalecer o audiovisual interiorano. No eixo “Práticas Sustentáveis”, o debate evidenciou a urgência de integrar responsabilidade socioambiental ao fazer cinematográfico, culminando em sugestões como a criação de um selo de certificação para produções sustentáveis e a capacitação de gerentes de sustentabilidade para atuação nos territórios.
Também foram defendidas ações regenerativas nas comunidades onde os filmes são produzidos e a articulação entre cultura e meio ambiente como política pública integrada, uma tentativa concreta de transformar o tema da edição, “Território Vivo, Cinema Sustentável”, em prática cotidiana.
O GT “Educação e Formação” propôs a ampliação do ensino de cinema brasileiro, baiano e regional nas escolas, bem como o mapeamento e fortalecimento de iniciativas comunitárias de formação já existentes nos territórios, a exemplo da Escola Livre Audiovisual da Chapada Diamantina. Já o GT “Políticas Públicas, Descentralização e Desburocratização” voltou a colocar no centro do debate um desejo recorrente entre os realizadores do interior: a continuidade da Lei Paulo Gustavo (LPG) ou, pelo menos, de seu modelo de execução.
A LPG foi apontada como experiência exitosa de descentralização, desburocratização e acesso simplificado aos recursos, sendo defendida tanto como política definitiva quanto como referência para a redistribuição de recursos como os do Fundo Setorial de Audiovisual (FSA).
Os participantes também sugeriram a criação de um sistema de compensação para regiões historicamente pouco contempladas em editais, uma representação fixa dos territórios no Conselho Superior de Cinema e a implantação de gabinetes itinerantes da Secretaria de Cultura do Governo da Bahia (Secult-BA) para ouvir diretamente as demandas locais.
O Fórum ainda avançou em discussões relacionadas ao tema “Acessibilidade e Inovação”, com propostas que reforçam a acessibilidade como eixo estruturante, e não complemento, da cadeia produtiva. Entre as sugestões, destacam-se a oferta de filmes acessíveis em escolas e espaços culturais e a formação de profissionais comprometidos com práticas acessíveis desde a concepção dos projetos.
O GT também defendeu que a próxima edição do Fórum incorpore um seminário dedicado exclusivamente ao tema, consolidando a inovação e a inclusão como pilares do audiovisual nos interiores.
As atividades formativas, distribuídas ao longo da programação, ampliaram a densidade dos debates. Oficinas e workshops sobre documentário socioambiental, práticas sustentáveis, produção audiovisual em territórios indígenas, captação de recursos e internacionalização ofereceram ferramentas práticas para que realizadores fortaleçam suas trajetórias em escala local e global.
O Seminário de Cinema Indígena também marcou a programação ao reunir os cineastas Divino Tserewahú, Alberto Álvares e Thaís Kokama para discutir o audiovisual como instrumento político, pedagógico e de afirmação identitária.
A terceira edição foi encerrada com o painel “Filmes de Longa-metragem em Produção no Interior”. Mediada pelo jornalista Rafael Carvalho, a atividade apresentou cinco longas em desenvolvimento com apoio da Lei Paulo Gustavo: “Alice Lembra” (Daniel Leite Almeida), “Ama mba’é Taba Ama” (Nádia Akawã Tupinambá e Gal Solaris), “Viagem ao Sertão” (Rayssa Coelho, Filipe Gama e Rogério Luiz Oliveira), “Não Deixe o Samba Morrer” (Luanda Lemnos e Raquel Valadares) e “Ambrosia: o Manjar dos Deuses” (Vinícius Pessoa).
Como síntese dos quatro dias, foi lida a versão inicial da Carta de Iraquara, documento que reúne as demandas e proposições construídas coletivamente pelos participantes. O documento firma compromissos com a descentralização, a inclusão e a sustentabilidade do setor e aponta caminhos práticos para políticas que dialoguem com as especificidades dos territórios.
“Foram dias intensos de debate. Durante esses últimos dias, a gente ouviu muitas sugestões. Tem um material muito rico pra ser consolidado. A carta não é o final do trabalho, é a continuação para que a gente construa as três próximas edições do Fórum. Todas elas já estão garantidas pelo edital de eventos calendarizados da Secult-BA. Então, a gente tem que aproveitar essa oportunidade para estruturar as nossas políticas públicas e ter o audiovisual dos interiores fortalecido, a partir de uma construção de dentro, que tenha a nossa cara, o nosso jeito de fazer e fruir cinema”, concluiu Aléxis Góis, coordenador de comunicação do evento.
O 3º Fórum Audiovisual dos Interiores da Bahia tem apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia. Conta ainda com o apoio da Prefeitura Municipal de Iraquara, da Associação do Setor Audiovisual do Sudoeste Baiano (SASB), e com a parceria do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste de Bahia (Uesb), por meio do programa Janela Indiscreta. A realização é da Ato3 Produções. Nesta edição, o Fórum tem como anfitrião o Festival Americano de Cinema e Vídeo Socioambiental de Iraquara (FASAI 2025).
