
Se você nunca ouviu falar de O Jogador, de Dostoiévski, vale a introdução: é um romance em que o autor mostra como o jogo aprisiona não apenas o bolso, mas também a esperança. O protagonista vive na ilusão de que a próxima aposta trará a grande virada. Não traz. O jogo oferece uma sensação passageira de vitória, enquanto arranca tudo o que ele tem.
Mais de um século depois, esse romance parece descrever o Brasil real. O jogo não está mais em cassinos, mas na palma da mão, disfarçado em aplicativos de bets. E o mais cruel: muitos apostam não por lazer, mas por desespero. O dinheiro do gás vira palpite. O arroz vira esperança. O Bolsa Família vira fichas digitais.
Foi para conter esse absurdo que o governo decidiu punir quem usa o benefício em apostas. Uma medida dura, mas necessária. Sorte não paga aluguel, nem compra comida. O Bolsa Família não é para financiar ilusões digitais, mas para garantir o mínimo da vida real.
Mas enquanto o governo tenta proteger o pobre do abismo, o Congresso protege o abismo do pobre. Nos últimos dias, os deputados barraram o projeto de lei que aumentaria a tributação sobre as casas de apostas. Em um país onde o trabalhador paga imposto até no pão, a Câmara decidiu aliviar empresas que lucram com o vício e a ilusão dos mais vulneráveis.
É uma escolha moralmente vergonhosa. Enquanto o cidadão precisa justificar cada centavo do auxílio que recebe, as bets acumulam bilhões sem contribuir de forma justa. Exportam lucros, exploram a esperança e ainda contam com a benevolência de quem foi eleito para defender o povo, não o lucro fácil.
O recado é claro: para o pobre, regra. Para o rico, roleta livre. Para quem aposta por desespero, punição. Para quem lucra com o desespero, perdão fiscal.
Bolsa Família não é jogo. Mas parece que, no tabuleiro da política, há deputados jogando contra o próprio povo. E, como ensinou Dostoiévski, quem aposta na ruína alheia, mais cedo ou mais tarde, também perde.
Por Advogado Reinaldo Lemos

Parabéns Nal pela fala, necessária, lúcida e corajosa. O Bolsa Família e outros benefícios sociais não são privilégios, são garantias mínimas de dignidade pra quem carrega o país nas costas. São políticas que representam o direito de viver com o básico e o básico, num Brasil tão desigual, já é um ato de resistência.
Tá mais do que na hora do povo acordar e votar em quem realmente se preocupa com o bem-estar social, em quem vai pro Congresso pra defender a maioria. E essa maioria somos nós, o povo que vive na base da pirâmide, quem de fato faz as engrenagens da nação brasileira girar.
Enquanto isso, a grande elite, e até quem hoje se acha rico por estar numa situação um pouco melhor, segue criticando os programas sociais do governo, sem entender que sem o povo trabalhador, nada funciona.
É revoltante ver políticos que deveriam representar o povo votando, mais uma vez, a favor dos próprios interesses e contra quem mais precisa. São os mesmos que falam de moral e família, mas viram as costas pra fome e pra injustiça.
E eu mesmo faço aqui minha autocrítica: já acreditei e apoiei gente que, no fim, mostrou estar do outro lado o lado de quem legisla contra o povo. Mas a consciência também evolui. A gente aprende, cai, levanta e segue mais atento.
Porque o verdadeiro jogo é outro. É o jogo da luta, da consciência e da coragem de não se calar. E quando o povo entender isso de vez, vai ter político que nunca mais vai dormir tranquilo.
Em tempos de “Emburrecimento populacional” os grandes empresários apostam na boa fé do pobre e usa de todas influências possíveis pra validar suas estratégias de exploração capitalista.
Trocando em miúdos, influencers digitais são corrompidos como já vimos na CPI das Bet’s à nos engabelar e não sentem nem um pouquinho de remorso ou alfinetada de bom senso !
Tempos tristes vivemos…
Artigo, assunto e citação muito bem vinda nesse momento, Amigo Reinaldo.