
A cidade de Amargosa, no coração do Vale do Jiquiriçá, transformou-se, até esta quarta-feira, na “capital do mundo” da educação do campo. O título simbólico celebra o lançamento presencial da Rede Mult (Rede de Educação Multisseriada), em um seminário sediado na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). O evento reúne mais de 500 participantes de diversas regiões do Brasil e até do exterior, em uma articulação histórica por uma nova abordagem da educação em territórios rurais, quilombolas, ribeirinhos, indígenas e extrativistas.
A rede, que já havia sido lançada virtualmente, agora ganha corpo presencialmente com o objetivo de valorizar e fortalecer as escolas multisseriadas instituições que funcionam em comunidades de difícil acesso e que, apesar da precariedade histórica, resistem como espaços fundamentais de formação humana.
“É uma satisfação poder estar aqui em Amargosa, reunindo tantas pessoas comprometidas com essa causa. São estudantes, professores, pesquisadores, gestores de várias partes do país e até de outros países discutindo uma realidade muitas vezes invisibilizada pelas políticas públicas”, afirmou o professor Salomão Hagi, um dos idealizadores da Rede.
Segundo ele, o lançamento representa o primeiro grande passo para “sensibilizar os coletivos envolvidos com as escolas multisseriadas de que elas têm uma potencialidade e que podem ser tratadas como experiências educativas potentes em seus territórios”.
Desafios estruturais e invisibilidade histórica
As escolas multisseriadas, geralmente localizadas longe das sedes municipais, são caracterizadas por atenderem turmas compostas por alunos de diferentes idades e anos escolares em uma mesma sala. Embora essa configuração demande metodologias específicas e criativas, essas escolas têm sido sistematicamente marginalizadas pelo poder público.
“O grande problema não são as classes multisseriadas, mas o olhar da política pública que, historicamente, negligenciou essas instituições. Elas têm o direito à educação negado, mesmo resistindo bravamente e educando os povos do campo, das águas e das florestas”, destacou Salomão.
Rede Mute e o novo Plano Nacional de Educação
Durante o evento, também foi ressaltada a urgência de envolver o governo federal, estadual e órgãos de controle e financiamento no debate. A expectativa é que a educação do campo especialmente a modalidade multisseriada seja contemplada de forma efetiva no novo Plano Nacional de Educação (PNE), atualmente em discussão.
“Essa é uma modalidade que não pode mais ser tratada como algo secundário. Sem financiamento, não há política pública que se sustente. Por isso, é fundamental o envolvimento do Estado e da sociedade civil nesse processo”, defendeu o professor.
Articulação e intersetorialidade como caminhos
A proposta da Rede Mult é realizar um diagnóstico amplo da realidade dessas escolas, reunindo dados e promovendo ações integradas que envolvam universidades, movimentos sociais, comunidades educativas, pesquisadores, professores, estudantes e órgãos de justiça. A ideia é construir políticas públicas a partir da escuta e da vivência desses territórios.
“Os problemas educacionais nos territórios do campo, das águas e das florestas são estruturais, históricos, complexos. Só conseguiremos enfrentá-los com uma ação articulada, interdisciplinar e intersetorial. Esse seminário é o início de um processo de transformação”, concluiu Salomão.

