
A guerra da Ucrânia veio criar um fator extra de agitação no sistema internacional. Para além do sofrimento do povo ucraniano e de mais um cenário criando inflação em grande parte do mundo, a guerra trouxe vários desenvolvimentos inesperados. Um deles foi o reforço das alianças em torno dos Estados Unidos, com a Europa se unindo em torno da Ucrânia e com os aliados asiáticos da América acreditando que a China estaria considerando, também, uma reavaliação das posições de forças.
Outro foi a forma como o mundo está vendo a eficácia do apoio militar americano, que deixou as poderosas forças armadas da Rússia incapazes de lançar uma ofensiva de ataque eficaz.
Em meio a toda essa crise, oportunidades diplomáticas se abrem para o Brasil; entretanto, até agora não parece que o país tenha sabido aproveitá-las da melhor forma.
A dificuldade do Brasil em tomar decisões consistentes
A polarização política de nossa sociedade ajuda a explicar a dificuldade de encontrar uma visão comum e única para o Brasil, independente de diferenças de circunstância. Mas não é o único motivo, nem o problema se limita à política externa.
Veja-se o caso dos jogos de cassino. O país segue há mais de três quartos de século proibindo a atividade. Existem todos os indicadores, vindo da maioria dos países parceiros e próximos do Brasil, de que é possível e mais prático liberar o jogo para regulá-lo do que manter a proibição. Ainda assim, a proibição mantém-se.
Mas, paralelamente, é possível jogar em cassinos online como o Novibet sem qualquer problema ou impedimento, e sem irem contra a lei quando se trata de plataformas estrangeiras (por omissão da lei). E o país permite que essa situação – cassinos online funcionando dentro da lei e proibição de cassinos físicos no território nacional – continue.
Falta uma estratégia consistente nessa matéria.
Criar um rumo
No dia da invasão russa, o presidente Jair Bolsonaro e o vice-presidente Hamilton Mourão fizeram declarações quase no sentido oposto um do outro. A mensagem que isso passou é que o Brasil não sabia que rumo tomar nessa crise.
Algo de semelhante está acontecendo agora: o presidente Lula tem sempre o impulso de falar que Ucrânia e Rússia tem o mesmo grau de culpa quanto à guerra e pede aos Estados Unidos para parar de encorajar o conflito. Depois, talvez aconselhado por seus diplomatas, volta a sublinhar a integridade territorial da Ucrânia, como manda a lógica do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas. Como falou a revista The Economist, a política externa de Lula está parecendo hiperativa, ambiciosa e ingênua, principalmente quando Lula faz apelos à paz sem esclarecer o que deveria a Ucrânia ceder (ou aconselhando a que ceda território porque “não podemos ter tudo o que queremos”).
Evitar o seguidismo da China e deixar de lado questões ideológicas
Mostrar o Brasil como um país que não alinha automaticamente com os Estados Unidos e a Europa pode ter vantagens se quisermos manter nosso relacionamento firme com os países Brics. A criação de uma alternativa ao dólar, muito sublinhada por Lula ultimamente, será importante para criar um maior equilíbrio geopolítico.
Mas é preciso não nos iludirmos quando à solidez dessa aliança. China e Índia se veem com muita desconfiança, e a Índia se mantém próxima dos Estados Unidos caso venha a ser necessário controlar uma possível ameaça chinesa. China e Índia estão aproveitando petróleo russo com desconto; a China, em particular, verá a continuação da guerra como sendo do seu interesse. Inclusive, os setores nacionalistas chineses preferem dar à cidade russa de Vladivostok o nome chinês que ela teve no passado.
O Brasil tem todos os meios para continuar recebendo fertilizantes da Rússia e exportando alimentação para a China sem ser necessário se mostrar demasiado próximo dos chineses. Maior independência será, pelo contrário, mais vantajosa, pois a China só respeita verdadeiramente quem mostra alguma força. E o Brasil não deve, também, vender sua carne por preço mais baixo que o seu real valor. Para defender todos esses interesses é necessário que esteja sempre bem claro o caminho que o Brasil vai tomar em sua política externa.
