Bahia

Neste mês de abril, comemora-se o aniversário de Hansem Bahia

Nascido em 19 de abril de 1915, em Hamburgo, Alemanha Ocidental, de nome Karl Heinz Hansen.
Foi marinheiro, escultor, poeta, escritor, cineasta, pintor e xilógrafo, o qual se dedicou especificamente. Participou da última guerra mundial denunciando-a no seu famoso “DRAMA DO CALVÁRIO”. Cansado de tudo e de todos, com suas ideias progressistas, sempre lutando pelo bem-estar do homem, saiu da Alemanha e veio conhecer o Brasil, chegando em São Paulo em 1950.
Em 1975, descobre Cachoeira e São Félix levado por sua ex-aluna Noelice Costa Pinto e seu amigo José Mário Peixoto Costa Pinto. Cidades que parecem Salvador, quando a conheceu. Resolveu morar em São Félix e doar toda a sua obra artística para a Bahia por testamento, para que se fizesse uma fundação com o seu nome.
No dia 19 de abril de 1976, dia do seu aniversário, no Touring Clube de Brasília, Hansen faz a doação para as autoridades federais olharem para Cachoeira que tanto precisava ser soerguida.
Em 1978, no dia 19 de abril, foi inaugurado o Museu Hansen Bahia, com Hansen bastante doente. No dia 30 de maio, parte Hansen Bahia para São Paulo. Foi operado no dia 13 de junho e não resistindo morreu de um edema pulmonar, uremia-câncer de bexiga, às 16 horas do dia 14 de junho, sendo sepultado no crematório M. em São Paulo.
Apresento artigo para se possível publicação, ou como sugestão de pauta, e anexo, seguem também, dois discursos. Um trata-se do discurso da professora Noelice Nascimento Costa Pinto (Testamenteira, fundadora, e sua primeira diretora), aluna e amiga de Hansen e Ilse Hansen. O segundo discurso, do poeta Carlos Capinam, primeiro presidente do conselho da Fundação Hansen Bahia, na gestão do amigo, eterno estadista e governador da Bahia, Dr Waldir Pires.
Os discursos, foram lidos na Fazenda Santa Barbara, em São Felix, na década de 80, na presença do governador Waldir Pires, secretários de estado, prefeitos, cônsules e da sociedade.
Pela atenção, Fábio Costa Pinto, Jornalista baiano, membro do conselho deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa — ABI, e conselheiro vitalicio da Fundação Hansen Bahia.


Noelice Costa Pinto*
Senhor Governador do Estado da Bahia.
Nesta casa aconteceu uma tragédia. É bom repetir sinteticamente, pois uma ditadura é o que há de mais terrível neste mundo.

Em 19 de abril de 1976 o Mestre internacional da arte da xilogravura, Hansen Bahia, doa, por testamento e em Brasília, sua obra extraordinária para ajudar as cidades históricas de Cachoeira e São Félix, abandonadas, pobres e sem prestígio estadual e nacional. Em 19 de junho de 1978, às 16 horas, no Hospital Sírio Libanês, morre Hansen Bahia. Deixa sua Ilse Hansen – sempre a Bahia no coração — que, com o tempo, foi induzida ao suicídio cultural pela total falta de sensibilidade e inteligência dos órgãos culturais, patrimoniais e artísticos dos governos passados, ressalvando-se GERALDO MACHADO e EDUARDO SIMAS.

Cada dia ILSE ia morrendo. A Fundação Hansen Bahia não passava de um Museu provisório em Cachoeira, mantendo a chama. Comigo e José Mário Peixoto Costa Pinto, ILSE aguentou o que foi possível. Chegou a querer queimar a OBRA HANSEN BAHIA em plena praça da Aclamação como protesto suicida. Impedi este que seria um dramático gesto contra a ditadura, a indignidade, a mentira e a falsidade.

Promessas e mais promessas. Nada. Morre a Fundação Hansen Bahia e quatro casas. Como testamenteira e Diretora Executiva, escolhida por Hansen Bahia em vida, tem sido muito duro, Senhor Governador. Tenho lutado arduamente quase sem ajuda do Estado e dos Municípios. Verdade seja dita, existe o Museu Hansen Bahia, devido o EX-DAC e FUNARTE; mas, Senhor Governador, o Museu encontra-se em uma casa onde nasceu a heroína ANA NERY, de propriedade da Prefeitura, já se deteriorando de tal modo que a Coordenadora Nacional do Museu do Ministério da Cultura Mara Estela ficou horrorizada. Na semana passada, veja só V. Excia. O absurdo, a Embaixatriz da França, no Museu com o Prefeito de Cachoeira e mais a Vice-Diretora da FUNDAÇÃO HANSEN BAHIA, quase tomaram banho tal a quantidade de água que caía pelo telhado.

Ora, precisa-se acabar urgentemente com a restauração da sede própria da FHB, pois a IPHAN já gastou Cz$ 800.000 (oitocentos mil cruzados) e parou a obra em novembro de 1987 por terminar a verba. Fosse outro o Ministro da Cultura que não o excelente CELSO FURTADO, diria que era retaliação. Que outra coisa pensar?

Estou informada pelo Deputado Fernando Santana que conseguiu a primeira parte da verba, não há retaliação por parte do Ministério da Cultura. Esta semana apelei em logo telegrama fonado ao Próprio Presidente Sarney e estou à espera da resposta.

Senhor Estadista Dr. Waldir Pires: A Fundação Hansen Bahia precisa de V. Excia. para implantar, aqui, a Escola Parque do Interior, isto é, o Projeto Hansen Bahia para resgatar a memória de dois amantes do Brasil, da Bahia, de Cachoeira e São Félix. Ilse e Hansen queriam que tido isto que V. Excia. vê hoje fosse para beneficiar o povo pobre e carente de quase tudo.

Para completar, senhor Estadista Waldir Pires, este projeto falta V. Excia. autorizar colocar a placa do seu governo sério e popular e iniciar: a escola profissionalizante de 1º. Grau; o cine-teatro; o posto médico e dentário (já existe casa aqui); as hortas comunitárias; a casa de farinha comunitária completa e eletrificada; e o forno para cerâmica.

Isto, senhor Estadista, não é nada em face dos milhões de dólares que a obra Hansen Bahia vale, a vida de Hansen Bahia, o suicídio de Ilse Hansen.

Segure esta bandeira, pois o Projeto Hansen Bahia é fundamental para o desenvolvimento desta região. E vou além: é a própria democracia que V. Excia. tanto luta desde a juventude. É a educação, a saúde, a alimentação e a cultura do povo.
Obrigada pela honra de ter aceitado o convite que muito deixa a todos, políticos ou não, felizes, pois V. Excia. encara a luta pela união popular em benefício do próprio povo desta terra sagrada da Bahia.

*Noelice Nascimento Costa Pinto, Diretora Executiva da FBH, Testamenteira de Hansen Bahia, Artista Plástica, Conselheira Vitalícia do Conselho FBH, Membro da UFBa.


José Carlos Capinan*

Companheiros e Companheiras:

Sou um poeta. Não sou de fazer discursos.

Tenho a honra de presidir o Conselho da Fundação Hansen Bahia, na forma dos seus Estatutos, porque ele “nasceu do amor” como dizia o próprio Hansen. Amor à Bahia. Amante do cheiro e da gente de pés descalços nos pelourinhos da vida. Sem sobrenome registrado, é Bahia. 

Que gesto lindo dele e de sua Ilse Hansen morta pela insensatez dos órgãos culturais da ditadura. Doou sua Obra, Doou suas vidas. Deram-se às comunidades como um todo, onde Cachoeira e São Félix abraçam-se e reconhecem que o sonho do grande gravador deste século já está tomando corpo com o Governo Democrático. 

É de capital importância o Projeto Hansen Bahia, o que a nossa querida Noelice chama muito bem de “Escola Parque do Interior.” 

A mudança é evidente. Do suicídio, do drama dos Hansen Bahia aos convênios que vão aumentando. Antes quase nada. Agora alguma coisa. Amanhã tudo. 

Realmente, a Obra Hansen Bahia é fenomenal, inclusive politicamente denuncia os horrores da guerra nazi-facista como a sua via crucis da Alemanha que, diga-se, participou do ano santo no Vaticano, em 1975. Hansen Bahia foi o único artista brasileiro convidado. Antes Hansen Bahia denunciava os horrores da escravidão quando ilustrou o livro “Navio Negreiro” de Castro Alves. 

Certa feita Edison Carneiro disse: “Este Navio Negreiro pertence tanto a Castro Alves quanto a Hansen Bahia”, Hansen, com aquelas gravuras, ilustra, não os navios de escravos, aqueles que na verdade fizeram o comércio de negros com a África durante três séculos, mas o “veleiro brigue”, o navio fantástico com que Castro Alves procurou despertar os seus contemporâneos contra a infâmia da escravidão.

MenottI Del Picchia, em março de 1951, dizia impressionado com o Drama do Calvário de Hansen Bahia: “Cada vítima de guerra sofreu um calvário. O de Karl Heinz Hansen foi e será o de milhões de homens em Hamburgo, Londres, Stalingrado, Lídice e hoje na Coréia tem suas quatorze estações inexoravelmente fixadas nestas admiráveis e tremendas xilogravuras que, mais quatorze obras de arte, são quatorze gritos de angústia e de protestos da própria humanidade contra os crimes dos homens”.

O Conselheiro José Mário Costa Pinto costuma dizer: “Conhecendo Hansen como conhecemos podemos afirmar, sem a menor dúvida, que faz parte do quadro de humanistas da escola como Lorca, Neruda, Hussel, Siqueiros, João XXIII, Jorge Amado, Eremburgo e Portinari”.

Apoiar a Fundação Hansen Bahia deve ser um compromisso de todos nós, baianos ou não, brasileiros preocupados com os nossos valores culturais, com as nossas artes e sobretudo com o passado, tão necessário e tão presente nesta região. 

Imagino o sofrimento de Ilse Hansen Bahia! Vamos resgatar a sua memória da forma mais realista e honesta; lutar para que a sede própria seja urgentemente restaurada; lutar para transformar o Projeto Hansen Bahia na “Escola Parque Interior”. É justíssimo, empreendimento barato e de alcance notável em todo o recôncavo baiano. 

Quero deixar aqui a minha palavra mais sincera possível para Noelice Costa Pinto, a quem Hansen Bahia e Ilse Hansen Bahia confiaram. O que ela tem feito é algo notável e exemplar, sem ganhar um só centavo. 

Tenho a certeza que o Governador, Waldir Pires está vivamente interessado por tudo que viu.

Em nome do Conselho Diretor da Fundação Hansen Bahia quero deixar claro que esta bandeira eu seguro e a Obra Hansen Bahia será salva, seus móveis e imóveis em benefício do povo.

Obrigado! 

*José Carlos Capinan Poeta, Compositor, Secretário de Cultura do Estado da Bahia (Governo Democrático de Dr. Waldir Pires).

Redação Criativa

A Criativa On Line é um Portal de Notícias que traz para o internauta as informações mais atualizadas sobre o que acontece na Bahia. Cidades, política, economia, esporte, clima, diversão e cultura. Tudo o que há de interessante nas mãos de quem precisa, basta clicar. E o mais importante: com interatividade! A Criativa On Line acredita que a opinião do seu público pode fazer a diferença, por isso mesmo dá oportunidade de votação para os visitantes, em enquetes que tratam de diversos assuntos, além de manter os comentários nas notícias, ampliando essa interatividade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo