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Em entrevista lenda da música fala sobre retorno da folia e momento político do país

Carnaval é a grande utopia brasileira, diz Gilberto Gil

Após dois anos sem Carnaval por causa da pandemia da Covid, Gilberto Gil se prepara para a festa com um marco importante do tropicalismo e da música brasileira a comemorar: os 50 anos do álbum Expresso 2222 (completados na verdade ano passado), produzido durante o exílio dele em Londres, junto com Caetano Veloso.

Nessa entrevista exclusiva ao jornal A TARDE, o cantor e compositor baiano conta como o álbum foi influenciado pela “incrível dinâmica cultural e musical de Londres” e pelas mudanças da época, dos hippies às manifestações estudantis.

Na conversa, Gil não deixa de lado também questões contemporâneas como o extremismo político no Brasil e se diz um otimista: “O processo transformador das coisas prossegue sempre. Mesmo dando um passo atrás aqui e ali”. Atencioso, ele ainda falou sobre suas expectativas em relação à gestão de Margareth Menezes à frente do Ministério da Cultura, as razões de se manter tão produtivo aos 80 anos, e como a família vem enfrentando a notícia do câncer em Preta Gil.

Depois de dois anos sem Carnaval, quase três anos desde o início da pandemia da Covid-19, e coincidindo também com a celebração dos 50 anos do álbum “Expresso 2222”, qual é a sua expectativa, como está seu estado de espírito para esses próximos dias?

Olha, o Carnaval é uma data muito importante na minha vida, na vida de todos da minha geração. É um evento cada vez mais importante na vida dos jovens também. Tem toda uma convergência dos elementos formadores da cultura baiana e brasileira. As várias manifestações culturais do País convergem todas no Carnaval. A música, a dança, a fantasia, as artes plásticas. Então, o Carnaval é o momento maior da vida cultural brasileira. E ficar dois anos sem poder realizar essa festa… Agora, vem uma versão nova da festa, com muita vontade, muita volúpia, muita gente. O País todo está mobilizado. Cheguei de Recife, e lá tinham caravanas do mundo todo. Encontrei franceses, americanos. Passaram por Recife, estão vindo para Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, que é uma versão nova do Carnaval do Brasil nos últimos anos. Belo Horizonte, as cidades do Sul, Florianópolis, Porto Alegre. Então, é uma festa brasileira muito importante e a expectativa sempre é muito alta, ainda mais agora.

E não podemos esquecer da celebração dos 50 anos do “Expresso 2222”, esse álbum tão importante para a música brasileira, diria até mundial. O que vocês estão planejando para marcar esse cinquentenário?

É uma data redonda, um marco. Cinquenta anos são as bodas de ouro, tem um papel importante na vida de qualquer um. Quando se comemoram 50 anos, se comemora sempre alguma coisa importante na vida de alguém. Então, resolvemos comemorar o disco que eu fiz quando cheguei do exílio. Todos se importam muito com esse trabalho. O pessoal do disco, o pessoal da crônica.

E vai ter o lançamento do livro sobre o álbum nesse Carnaval também?

Isso, vai ter o lançamento do livro, que é uma iniciativa da Ana de Oliveira, que acompanha a história da música brasileira. Fez um trabalho interessantíssimo de publicação de coisas relacionadas à Tropicália. E agora fez esse livro, que é um livro muito bonito, com ilustrações, artes. Mistura pesquisa em arquivos, reportagens. É um livro muito bonito, muito bem feito. E tem textos interessantes de colegas, como é o caso do Arnaldo Antunes. Enfim, é um livro muito bacana.

Deixa só voltar um pouco à história do álbum Expresso 2222. Ele começou a ser produzido durante o seu exílio em Londres, junto com Caetano. Foi quando você viu de perto o sucesso dos Beatles, Rolling Stones, Jimi Hendrix. Como esse caldeirão cultural influenciou na criação da obra?

Olha, um dos elementos marcantes do tropicalismo foi essa abordagem, foi se debruçar sobre essas coisas novas que estavam acontecendo no mundo, em termos de música, de expressividade, de comportamento. E nesse exílio, meu e de Caetano, se estabeleceu uma espécie de disrupção naquele processo do Tropicalismo. Só a Gal, depois do nosso exílio, da nossa saída do Brasil, seguiu levando adiante todo aquele trabalho que ela tinha feito conosco. E ela tinha participado muito ativamente de todo esse processo. Então, lá no exílio, quando surgiu a perspectiva de voltar ao Brasil depois de três anos, eu comecei a pensar na realização de um novo trabalho. Enfim, que me reintroduzisse ao público brasileiro, minha música ao público brasileiro. Que retomasse as coisas que tinham sido interrompidas com o final do tropicalismo. O Expresso 2222 foi esse disco. Foi um disco de reintrodução de nosso trabalho na vida musical brasileira. Enfim, ele tinha elementos que resultaram do meu período lá em Londres, com a incrível dinâmica cultural e musical que Londres tinha naquela época. Os grupos de rock, os grupos novos de música contemporânea. Todas essas influências sofridas, a partir desses elementos. Tudo acabou influenciado no repertório do disco, na forma como ele foi feito, nas escolhas musicais que foram feitas. Nesse sentido, os 50 anos desse disco são muito merecedores de comemoração.

Li uma entrevista da autora do livro Expresso 2222, Ana Oliveira, na qual ela diz que essa sua estada em Londres acabou colocando tudo em perspectiva – música, história, Brasil, vida. Como esse alargamento de visão influenciou na produção do álbum?

Há 50 anos, foi um momento de atividade cultural muito intensa no mundo inteiro e no Brasil também. As novas manifestações dos jovens, dos hippies, dos estudantes, reivindicando uma nova forma de sociedade, novas formas de relações entre os vários componentes da sociedade mundial. Tudo isso acabou resultando no disco. Não era só a música, era toda essa coisa nova de comportamento, de costumes renovados. Tudo isso acabou entrando como ingredientes no disco.

Mudando agora um pouco de assunto, os últimos tempos têm sido muito turbulentos no País, e o ponto mais visível disso foram os atos extremistas contra os Três Poderes, em Brasília, no último dia 8 de janeiro. Como você vê esse radicalismo, essa polarização extremada? Ela é fruto de nosso tempo?

É sim, é um fenômeno que está acontecendo no mundo inteiro. Especialmente em países que têm historicamente responsabilidade com o desenvolvimento da cultura, da vida social. Países da Europa e países do novo mundo, como é o caso do Brasil. São sociedades que estão sofrendo o impacto das dificuldades históricas. Escravidão, a exploração predatória do capitalismo, todas essas coisas. E isso se reflete na vida política dos Estados Unidos, da França, da Alemanha, da Inglaterra. Aqui no Brasil, na Argentina, nos países da América do Sul. Tudo isso, como você disse, é resultado de um momento novo, um momento de transição. Momento de novas formas de aglutinação social em torno dos problemas. E tem a influência brutal das novas tecnologias, das redes sociais. É muita coisa. É um tempo complicado.

Olhando um pouco para frente, você já apontou em outras entrevistas o Brasil como país com vocação para uma realidade mais harmônica. Diante de situações dramáticas que vivemos, a exemplo do quadro desumano dos (povos indígenas) yanomamis, do aumento da fome no País nos últimos anos, dá pra manter esse otimismo em relação ao futuro?

Eu acho que sim, porque a história anda pra frente. Embora a gente tenha uma influência do passado, um reflexo das coisas que já foram vividas sobre o presente, mas na verdade a história anda pra frente. Sou otimista nesse sentido. O processo transformador das coisas prossegue sempre. Mesmo dando um passo atrás aqui e ali. As dificuldades de aprisionamento das estruturas. Otimismo é isso. Significa que a gente não tem como voltar atrás. Não há alternativa. Tem que andar pra frente. Isso significa progredir, se desenvolver, se harmonizar mais fortemente do ponto de vista social. Se livrar das grandes dificuldades que foram colocadas pela exploração do homem pelo homem. Essas coisas todas…

Nesse sentido, falta muito para o Brasil fazer a reparação que precisa com os negros, que tiveram seus ancestrais trazidos como escravizados da África. Ainda mais quando se lembra que escravidão foi abolida sem qualquer tipo de amparo para essa população…

É um legado histórico imenso, dificuldades que precisam ser trabalhadas com muita intensidade. Têm se intensificado muito os questionamentos em relação à escravidão nos últimos tempos, todas as consequências negativas da abolição mal feita, incompleta. A dificuldade da inclusão social que os negros têm, o racismo, o preconceito. Todas essas questões estão em ebulição cada vez maior, obrigando a sociedade brasileira a operar com esses elementos, trabalhar com essas questões em busca de soluções para mais harmonização, mais coesão social. E tudo isso em meio  às grandes dificuldades provocadas pelo surgimento das novas formas de comunicação. É muita coisa.

Gil, mudando um pouco de assunto, no ano passado, ao responder uma pergunta da escritora Djamila Ribeiro, no programa Roda Viva, você disse que o aspecto mais relevante para a Academia Brasileira de Letras (ABL) o ter acolhido foi o reconhecimento da instituição da força da cultura popular e da oralidade. Às vésperas do Carnaval, você poderia falar um pouco da importância desses dois aspectos na formação da identidade baiana e brasileira?

Sim, o Carnaval é uma festa que coloca em contato, em processo de interação, uma quantidade enorme de pessoas, de gente, milhões de pessoas. Uma quantidade enorme de elementos culturais como eu disse no início da conversa. Da vida estética, da vida afetiva, da cultura de um modo geral. Então é uma festa extraordinária. Processa o universo de possibilidade de manifestações. O Carnaval é um dos momentos em que se projeta a utopia da redenção, da plenitude social. O Carnaval é o grande elemento mítico utópico. A grande utopia brasileira.

Lembro de uma frase sua em que você diz que é preciso resistir à “fúria destruidora da cultura”. Nesse sentido, pergunto: depois de quatro anos com o setor cultural sendo visto quase como um inimigo pelo Estado, qual é a sua expectativa, você que esteve à frente da pasta entre 2003 e 2008, em relação à gestão de Margareth Menezes à frente do Ministério da Cultura.

A minha expectativa é que ela continue representando no ministério, nas relações entre o governo central e o mundo todo periférico, os estados, os municípios etc, que ela continue representando o que ela representa. Uma mulher afro-baiana, afro-brasileira, com todas as responsabilidades ligadas à essa herança africana na nossa vida, na nossa sociedade, na nossa cultura. Enfim, que ela tenha a possibilidade de trabalhar com um governo que esteja voltado para essas responsabilidades, para esse senso de responsabilidade com relação à cultura brasileira. Que ela tenha apoio institucional do governo. Que ela tenha a possibilidade de circulação das ideias, que ela tenha a capacidade de garimpar quadros, segmentos, coletivos que estejam interessados nessa dinamização da vida cultural brasileira. Que ela possa resgatar a vida cultural brasileira depois desses quatro anos de abandono, de desprezo pela riqueza cultural do País. Ela precisa de trabalho, mas também de sorte. Nós precisamos cada vez mais de sorte, de fortuna, no sentido profundo da palavra fortuna.

Além dos 50 anos do álbum Expresso 2222, eu queria lembrar de outra data importante: você completou 80 anos em 2022, e continua produzindo bastante, hoje mesmo retornando de viagem de um show. Como e por que seguir tão atuante nessa fase da vida?

Eu acho que é a inércia natural de uma vida de muito movimento, de muita aceleração, de muita velocidade. Enfim, chega uma hora que você bota o carro no ponto- morto, mas a velocidade que ele tem já vai levando ele adiante. Mesmo no ponto morto você já não precisa mais acelerar tanto. A inércia do processo já vai levando. E até os 80 anos vivendo essa fase da vida, depois de mais de 50 anos de vida muito produtiva, muito realizadora de coisas, etc. Eu agora estou vivendo o tempo que me resta com uma certa responsabilidade ainda remanescente do trabalho que foi feito, mas também com a perspectiva de tranquilização da vida daqui pra frente.

Para finalizar, uma pergunta um pouco mais pessoal: a gente teve a oportunidade de conhecer a relação próxima que você tem com a família, os netos, os agregados e a ancestralidade permeando tudo na série documental, da Amazon, “Em casa com os Gil”. Recentemente, Preta Gil contou que foi diagnosticada com um câncer e você até já se manifestou publicamente, citando a letra de uma de suas músicas, Realce. Como a família está lidando com esse desafio?

As pessoas, a gente, todos nós nascemos e crescemos com essa coisa da plenitude da saúde, mas também com as dificuldades, com as doenças, com os empecilhos para viver bem. Todos nós temos que lidar com essas questões, todas as famílias, todo mundo tem problemas a resolver o tempo todo em relação a tanta coisa, inclusive em relação à saúde. Preta agora está vivendo um problema de saúde e nós todos estamos dispostos a estar com ela para superação. Ainda hoje, na viagem de Recife para cá, foram várias as pessoas mandando força, votos de recuperação, de saúde. Ela é uma pessoa muito querida, com um espiritual muito forte. E está trabalhando. É responsável pelos seus cuidados, com muito interesse em encontrar as melhores soluções para resolver o problema que está vivendo. Enfim, todos nós estamos com muita esperança, muita expectativa positiva em relação à saúde dela.

Magno Bastos

Fez Rádio e TV, Pedagogia é Especialista em Direito Educacional, Cronista Esportivo, Mestre de Cerimônia Locutor, Repórter, Apresentador e Produtor

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