São Paulo, novembro de 2020 — Uma investigação conduzida pela Mercy For Animals em uma granja pertencente à empresa Naturovos, localizada na cidade de Salvador do Sul, no estado do Rio Grande do Sul, flagrou o uso irregular de um produto que contém a substância tóxica Clorpirifós sendo aplicado diretamente sobre galinhas e ovos. A investigação também documentou animais vivendo em gaiolas de metal sem espaço adequado, manejados de forma truculenta durante o transporte e sofrendo com ferimentos, doenças e exaustão.
O conteúdo da investigação foi entregue junto a denúncias ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e à Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural do Rio Grande do Sul, no dia 10 de novembro, como também as denúncias ao Ministério Público Federal e ao Ministério Público Estadual do Rio Grande do Sul, no dia 11 de novembro.
Listado para reavaliação pela Anvisa, podendo até mesmo vir a ser proibido, o Clorpirifós é considerado altamente tóxico. Na bula do ectoparasiticida Colosso Avicultura, o fabricante adverte para “não pulverizar os aviários com aves alojadas.” Em seguida, acrescenta: “A utilização do produto em condições diferentes das indicadas neste rótulo-bula pode causar a presença de resíduos acima dos limites aprovados, tornando o alimento de origem animal impróprio para o consumo.”
“Esse produto químico é tóxico para o sistema nervoso e pode provocar uma série de sintomas como depressão do sistema cardiocirculatório, agitação, convulsões, coma e até a morte dos animais”, afirma o Prof. Dr. Renato Silvano Pulz, médico veterinário e docente do Curso de Medicina Veterinária da ULBRA-RS. “O princípio ativo [do Clorpirifós] tem efeito residual, contaminando o meio ambiente e também sendo encontrado nos alimentos como carne, leite e ovos. Há grande preocupação em relação aos efeitos neurológicos, em especial, em crianças”, completa.
“Além de cenas de terrível sofrimento para as galinhas, nossa investigação flagrou a aplicação irregular do produto Colosso Avicultura, que contém substância altamente tóxica, sobre os animais, sem proteger suas bandejas de alimentação”, afirma Sandra Lopes, diretora executiva da Mercy For Animals no Brasil. “Apresentamos essas representações não só para evitar que os animais continuem a sofrer, mas também para alertar sobre os possíveis riscos à saúde das pessoas que eventualmente consumirem os ovos”, explica.
Proibido em diversos países
O Clorpirifós é proibido em todos os 27 países membros da União Europeia desde 31 de janeiro de 2020. Nos Estados Unidos, o Clorpirifós já foi proibido no Havaí (1 de janeiro de 2019) e em breve o será também na Califórnia (31 de dezembro de 2020). No Canadá, a discussão sobre a proibição está em andamento. Na Tailândia, o Clorpirifós foi proibido em 1 de junho de 2020. No Reino Unido, a substância é proibida desde 2016.
Segundo relatórios da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) e da Autoridade Europeia para Segurança dos Alimentos (EFSA), não há níveis seguros de exposição ao Clorpirifós, que afeta o sistema nervoso e pode provocar problemas de desenvolvimento cerebral em humanos. Nas palavras da Academia Americana de Pediatria: “Há uma série de estudos que demonstram os efeitos prejudiciais da exposição ao Clorpirifós em fetos em desenvolvimento, bebês, crianças e mulheres grávidas.” A substância ainda é associada ao desenvolvimento de condições de saúde como o autismo e a síndrome de Parkinson, segundo informe técnico da ONG europeia Health and Environment Alliance (HEAL).
As gaiolas e a indústria de ovos no Brasil
A prática do confinamento de galinhas em gaiolas é considerada uma das piores causas de sofrimento animal. Nesse sistema, as aves são mantidas em espaços minúsculos, sem poder andar livremente, esticar as asas, descansar confortavelmente e expressar comportamentos naturais. É comum que galinhas fiquem presas, sofram lacerações ou tenham membros mutilados no aramado das gaiolas ou sob as bandejas de ração. Muitas aves morrem em decorrência de ferimentos, doenças e exaustão. Seus corpos em decomposição podem ser encontrados em meio a galinhas ainda botando ovos para consumo humano.
Dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) de 2020 indicam que haja 118,5 milhões de galinhas na indústria de ovos. Estima-se que cerca de 95% delas estejam confinadas em gaiolas — aproximadamente 112,5 milhões de aves.
Cerca de 1.800 empresas em todo o mundo já anunciaram compromissos de não utilizar ovos produzidos em sistemas que mantêm galinhas confinadas em gaiolas, prática banida em toda a União Europeia, assim como em diversos estados dos EUA.
No Brasil, mais de 100 empresas anunciaram políticas nesse sentido, entre elas as maiores redes de restaurantes e alguns dos maiores provedores de serviços de alimentação do país — como McDonald’s, Burger King, Subway, Spoleto, GRSA e Sodexo.
Também alinhados com essa tendência, os gigantes do setor de varejo Carrefour, Grupo Big e Zaffari já se comprometeram a parar de vender ovos de galinhas confinadas em gaiolas e devem completar a transição até 2028. Consequentemente, granjas que fornecem para essas empresas, como a Naturovos, terão de se adaptar às exigências dos consumidores e aos novos padrões do mercado para manterem-se competitivas.
Recentemente, o GPA, grupo que detém as marcas Pão de Açúcar e Extra, também assumiu o compromisso de eliminar as gaiolas de sua cadeia de fornecimento de ovos até 2028.
A Mercy For Animals entende que as condições de vida dos animais documentadas na investigação são inaceitáveis. Por esse motivo, está pedindo para que a Naturovos anuncie um compromisso de eliminar as gaiolas em todas as suas operações e que implemente medidas significativas para reduzir o sofrimento das galinhas.
