No Agosto Lilás, mês de conscientização sobre a violência contra a mulher, em meio a uma pandemia, é importante olhar com mais atenção para as mulheres que estão em casa com seus possíveis agressores. O medo de buscar amparo legal existe, mas há casos em que a mulher nem pensa nessa possibilidade, porque acredita em uma mudança. Uma história como essa é retratada em um videoclipe, com mais de 845 mil visualizações, da cantora gospel Cassiane, lançado neste ano. Nele, a personagem interpretada sofre agressões constantes do marido, que no final é “tocado” pela Bíblia e pela fé. Por causa da indignação com o vídeo, 70 coletivos evangélicos se uniram, criaram o Movimento Social de Mulheres Evangélicas do Brasil (Mosmeb) e formalizaram, junto ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, o pedido da retirada do vídeo do ar. Uma das representantes do movimento em Salvador, Elisabete Pereira, fala sobre a importância do feminismo entre as evangélicas e sobre a romantização da violência contra a mulher.
Como surgiu o movimento?
O movimento surgiu a partir de uma plenária ampliada, que foi realizada no dia 19 de julho e contou com a participação de cerca de 70 coletivos evangélicos de todas as regiões do Brasil, por conta de um videoclipe de uma música que a MK Music lançou da cantora Cassiane e, infelizmente, traz encenações de violência doméstica, no qual é facilmente identificável a violência física, psicológica, patrimonial, e ainda de maneira mais inconsequente nós percebemos a naturalização e romantização dessas violências.
Por isso mulheres evangélicas de todo o país começaram a entrar em contato umas com as outras pelas redes sociais e nos reunimos. Daí, decidimos que precisávamos nos posicionar contra essa peça publicitária, porque não tem como a gente aceitar mais essa insinuação de que o silêncio, a fé e a devoção da mulher evangélica vai promover, através da ação divina e da manifestação Deus, a mudança de comportamento do agressor, que, com base no clipe, seria o marido.
O que é essa romantização da violência?
Achar que isso vai passar, através de oração ou que somente causas externas ao homem promovem essas agressões. O vício em drogas, em bebidas alcoólicas ou até uma ação espiritual demoníaca que atua na vida dele e que o leva a ter atitudes violentas. É dizer que tudo vai se resolver de forma muito simples. De uma hora para outra ela deixa um bilhete na Bíblia, vai
embora e ele pega aquela Bíblia e muda, se torna um novo homem. E na prática, pelos testemunhos que a gente tem das mulheres que sofreram violência, isso é um processo. Por várias vezes esse homem diz que vai mudar, que não vai mais fazer isso, vive um momento de plenitude no relacionamento, uma lua de mel, aquele período que está tudo bem e novamente, depois de um período, o agressor continua a violência contra essa mulher. Então isso é romantizar. Não precisa judicializar, não busca um amparo legal, você simplesmente silencia, ora e espera o mover de Deus. Isso foi o que nos indignou.
Teve até uma segunda versão do clipe, com a inclusão de cenas em que a mulher faz a denúncia. Isso resolve o problema?
Inclusive, a gente até percebe que essa mudança foi por conta dos nossos posicionamentos, porque choveu dislike no vídeo e pessoas questionando as instituições evangélicas. Não se pode apagar dados históricos. Infelizmente, o Brasil é um dos países que têm alto índice de violência doméstica, e temos uma pesquisa de Valéria Vilhena, que é teóloga, feita em 2009, depois publicada no livro Uma Igreja sem voz: análise de gênero da violência doméstica entre mulheres evangélicas, lançado em 2011, e nela ela aponta que 40% das mulheres vítimas de violência doméstica declaram-se evangélicas. Então, se temos dados que colocam o Brasil em uma posição péssima em relação à violência doméstica, em relação à pedofilia, ao feminicídio, e ao mesmo tempo temos um vídeo que coloca a mulher em uma situação de silenciamento, de suportar aquilo, esperar que vai passar, isso é um desserviço, uma irresponsabilidade, porque essa mulher que é silenciada, esperando uma mudança, pode até ser a vítima de um feminicídio, pois a agressão pode se perpetuar e acabar na morte dessa mulher.
O que foi feito pelo movimento em relação ao videoclipe?
Formalizamos uma reclamação contra a empresa MK Music no Ministério Público do Rio de Janeiro apontando como apologia à violência doméstica, pedindo a retirada dele do ar, por conta dessa influência que leva a mulher a crer que tudo vai se resolver, sem uma denúncia, sem o afastamento. Existe também no meio evangélico a questão de colocar muito peso na mulher, da responsabilidade sobre o relacionamento, pela felicidade do lar. A gente compreende que isso é fruto de uma cultura patriarcal. “A mulher sábia edifica a sua casa”, isso é uma passagem bíblica, mas não quer dizer que a mulher vai ter que suportar os erros, as atitudes pecaminosas e criminosas desse homem violento, que, além de ser um pecado, é um crime de agressão, tipificado na Lei Maria da Penha. A gente também produziu um clipe que demonstra cena a cena quais são os tipos de violência que se passam dentro do clipe da Cassiane, para trazer o entendimento para outras mulheres evangélicas. Na verdade, para mulheres de uma forma geral, mas como o clipe é evangélico e acaba circulando de maneira muito forte dentro das igrejas, é principalmente para alertar essas mulheres. E, além desse clipe, teve a representação oficial no MP, que cabe agora a decisão do promotor responsável processar ou não a empresa. A denúncia não significa que vamos conseguir algo, vai depender do MP.
Vocês entraram com esse pedido na Justiça contra a empresa produtora do clipe e não contra a cantora Cassiane. Mas ela não seria a pessoa por trás da produção também? Qual o papel de uma artista que tem um poder muito grande de disseminar ideias e pensamentos entre seu público?
Só a Justiça pode apurar as responsabilidades. Porque é uma relação contratual. Quais são os termos do contrato da pessoa Cassiane com a MK? Será que ela tem autonomia para opinar na construção do clipe? Esse mundo empresarial e artístico é muito amplo. Tem que observar isso. Não é direcionar para a pessoa física de Cassiane, até porque ela tem uma carreira belíssima. Mas esse episódio é importante para que Cassiane e toda personalidade religiosa compreendam que eles exercem um poder simbólico sobre a comunidade deles. Então, Cassiane acaba exercendo um poder simbólico sobre as mulheres que ouvem essa música. Esperamos que eles passem a observar a partir de agora que tudo que fazem com base na Bíblia tem reflexos sociais que vão ter efeitos para a sua comunidade e brasileiros de forma geral.
O movimento já articulou ações futuras? Já sabe de que forma vão continuar atuando?
Sim. Foi algo muito natural, a gente crê, realmente, no mover espiritual, não foi nada planejado, então simplesmente nos reunimos. De lá para cá, a gente tem que se organizado, mas, como tudo é muito novo, a intenção é que a gente continue com ações, tanto para trazer mais conhecimento e informação para as mulheres que estão dentro da igreja, como também vigilantes com produtos com o mesmo teor, para apontar e dizer que não é esse o caminho, não é essa atitude que deve ser tomada.
Como é a relação entre evangélicas e feministas? Há preconceito e resistência?
O que nós, mulheres evangélicas, trazemos na discussão dentro dos nossos segmentos religiosos – porque só o Mosmeb conseguiu reunir 70 coletivos diferentes, e dentro desses coletivos existem mulheres de denominações diferentes, então é muito amplo – é esse entendimento de que as mulheres sempre foram subestimadas. Sempre houve a questão da dominação por conta do patriarcado sobre essa mulher que estava sob domínio do pai, depois passava para o domínio do marido. Essa questão de posse, de controlar o que essa mulher pode e não pode fazer, onde ela pode estar e não pode estar e o que ela vai vestir, de controlar não só os nossos corpos femininos, mas também as nossas mentes e sobretudo os corpos pretos que acabam sofrendo mais ainda, por conta da questão racial. Há pesquisas que apontam que mulheres negras são mais atingidas pela violência doméstica. Em contrapartida, dentro das igrejas evangélicas, principalmente as pentecostais e neopentecostais, o público é predominantemente de mulheres negras. Então, temos que trazer esses entendimentos para as nossas irmãs. Claro que existe um pouco de resistência, porque quem está no topo não quer perder esse poder, esse senhorio, mas até agora a gente vem trabalhando e trazendo informação, e cada dia mais agregando mulheres para essa compreensão, porque é uma desconstrução. Nós fomos criadas compreendendo assim, que existe determinada coisa de mulher e determinada coisa de homem, tem que desconstruir isso. É um processo longo, a gente compreende isso, porque nada se muda de um dia para o outro, mas seguimos buscando e trazendo essa reflexão. Quando nós vamos fazer a leitura da própria Bíblia, a gente pode dizer que Jesus Cristo foi o primeiro feminista, porque em uma cultura extremamente machista e patriarcal na qual a Bíblia foi escrita na época, nós vemos o tempo todo Jesus direcionando e incluindo a mulher em todas as suas ações. Jesus quebrou diversas regras. Qual foi a atitude de Jesus com a mulher prostituta que foi apresentada para ser apedrejada? Quando Jesus ressuscitou, para quem apareceu primeiro? Para as mulheres. Ele sempre valorizou e incluiu as mulheres, então, não tem por que continuarmos vivenciando uma negação dos direitos da mulher.
Vocês conseguem manter um diálogo com feministas não evangélicas?
Acredito que sim. Nós estamos em um processo de construção, em um novo momento, é tudo muito novo, mas eu acredito que a gente tem conseguido manter esse diálogo. Até porque hoje nós colhemos os frutos dessas mulheres feministas que nos antecederam, que não traziam esse recorte racial nem recorte religioso. Em um determinado momento do feminismo, era como só existissem mulheres brancas. E aí teve que fazer o recorte racial, e agora, mais uma vez, a gente traz um recorte religioso, porque temos que nos unir para seguir. Não podemos ver essa fragmentação como algo negativo, mas algo que é diverso. Se nós falamos em diversidade, nós temos que estar sempre prontos para abraçar essa diversidade e dialogar com ela.
No Agosto Lilás, mês de conscientização sobre a violência contra a mulher, em meio a uma pandemia, é importante olhar com mais atenção para as mulheres que estão em casa com seus possíveis agressores. O medo de buscar amparo legal existe, mas há casos em que a mulher nem pensa nessa possibilidade, porque acredita em uma mudança. Uma história como essa é retratada em um videoclipe, com mais de 845 mil visualizações, da cantora gospel Cassiane, lançado neste ano. Nele, a personagem interpretada sofre agressões constantes do marido, que no final é “tocado” pela Bíblia e pela fé. Por causa da indignação com o vídeo, 70 coletivos evangélicos se uniram, criaram o Movimento Social de Mulheres Evangélicas do Brasil (Mosmeb) e formalizaram, junto ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, o pedido da retirada do vídeo do ar. Uma das representantes do movimento em Salvador,
No Agosto Lilás, mês de conscientização sobre a violência contra a mulher, em meio a uma pandemia, é importante olhar com mais atenção para as mulheres que estão em casa com seus possíveis agressores. O medo de buscar amparo legal existe, mas há casos em que a mulher nem pensa nessa possibilidade, porque acredita em uma mudança. Uma história como essa é retratada em um videoclipe, com mais de 845 mil visualizações, da cantora gospel Cassiane, lançado neste ano. Nele, a personagem interpretada sofre agressões constantes do marido, que no final é “tocado” pela Bíblia e pela fé. Por causa da indignação com o vídeo, 70 coletivos evangélicos se uniram, criaram o Movimento Social de Mulheres Evangélicas do Brasil (Mosmeb) e formalizaram, junto ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, o pedido da retirada do vídeo do ar. Uma das representantes do movimento em Salvador, Elisabete Pereira, fala sobre a importância do feminismo entre as evangélicas e sobre a romantização da violência contra a mulher.
Como surgiu o movimento?
O movimento surgiu a partir de uma plenária ampliada, que foi realizada no dia 19 de julho e contou com a participação de cerca de 70 coletivos evangélicos de todas as regiões do Brasil, por conta de um videoclipe de uma música que a MK Music lançou da cantora Cassiane e, infelizmente, traz encenações de violência doméstica, no qual é facilmente identificável a violência física, psicológica, patrimonial, e ainda de maneira mais inconsequente nós percebemos a naturalização e romantização dessas violências.
Por isso mulheres evangélicas de todo o país começaram a entrar em contato umas com as outras pelas redes sociais e nos reunimos. Daí, decidimos que precisávamos nos posicionar contra essa peça publicitária, porque não tem como a gente aceitar mais essa insinuação de que o silêncio, a fé e a devoção da mulher evangélica vai promover, através da ação divina e da manifestação Deus, a mudança de comportamento do agressor, que, com base no clipe, seria o marido.
O que é essa romantização da violência?
Achar que isso vai passar, através de oração ou que somente causas externas ao homem promovem essas agressões. O vício em drogas, em bebidas alcoólicas ou até uma ação espiritual demoníaca que atua na vida dele e que o leva a ter atitudes violentas. É dizer que tudo vai se resolver de forma muito simples. De uma hora para outra ela deixa um bilhete na Bíblia, vai
embora e ele pega aquela Bíblia e muda, se torna um novo homem. E na prática, pelos testemunhos que a gente tem das mulheres que sofreram violência, isso é um processo. Por várias vezes esse homem diz que vai mudar, que não vai mais fazer isso, vive um momento de plenitude no relacionamento, uma lua de mel, aquele período que está tudo bem e novamente, depois de um período, o agressor continua a violência contra essa mulher. Então isso é romantizar. Não precisa judicializar, não busca um amparo legal, você simplesmente silencia, ora e espera o mover de Deus. Isso foi o que nos indignou.
Teve até uma segunda versão do clipe, com a inclusão de cenas em que a mulher faz a denúncia. Isso resolve o problema?
Inclusive, a gente até percebe que essa mudança foi por conta dos nossos posicionamentos, porque choveu dislike no vídeo e pessoas questionando as instituições evangélicas. Não se pode apagar dados históricos. Infelizmente, o Brasil é um dos países que têm alto índice de violência doméstica, e temos uma pesquisa de Valéria Vilhena, que é teóloga, feita em 2009, depois publicada no livro Uma Igreja sem voz: análise de gênero da violência doméstica entre mulheres evangélicas, lançado em 2011, e nela ela aponta que 40% das mulheres vítimas de violência doméstica declaram-se evangélicas. Então, se temos dados que colocam o Brasil em uma posição péssima em relação à violência doméstica, em relação à pedofilia, ao feminicídio, e ao mesmo tempo temos um vídeo que coloca a mulher em uma situação de silenciamento, de suportar aquilo, esperar que vai passar, isso é um desserviço, uma irresponsabilidade, porque essa mulher que é silenciada, esperando uma mudança, pode até ser a vítima de um feminicídio, pois a agressão pode se perpetuar e acabar na morte dessa mulher.
O que foi feito pelo movimento em relação ao videoclipe?
Formalizamos uma reclamação contra a empresa MK Music no Ministério Público do Rio de Janeiro apontando como apologia à violência doméstica, pedindo a retirada dele do ar, por conta dessa influência que leva a mulher a crer que tudo vai se resolver, sem uma denúncia, sem o afastamento. Existe também no meio evangélico a questão de colocar muito peso na mulher, da responsabilidade sobre o relacionamento, pela felicidade do lar. A gente compreende que isso é fruto de uma cultura patriarcal. “A mulher sábia edifica a sua casa”, isso é uma passagem bíblica, mas não quer dizer que a mulher vai ter que suportar os erros, as atitudes pecaminosas e criminosas desse homem violento, que, além de ser um pecado, é um crime de agressão, tipificado na Lei Maria da Penha. A gente também produziu um clipe que demonstra cena a cena quais são os tipos de violência que se passam dentro do clipe da Cassiane, para trazer o entendimento para outras mulheres evangélicas. Na verdade, para mulheres de uma forma geral, mas como o clipe é evangélico e acaba circulando de maneira muito forte dentro das igrejas, é principalmente para alertar essas mulheres. E, além desse clipe, teve a representação oficial no MP, que cabe agora a decisão do promotor responsável processar ou não a empresa. A denúncia não significa que vamos conseguir algo, vai depender do MP.
Vocês entraram com esse pedido na Justiça contra a empresa produtora do clipe e não contra a cantora Cassiane. Mas ela não seria a pessoa por trás da produção também? Qual o papel de uma artista que tem um poder muito grande de disseminar ideias e pensamentos entre seu público?
Só a Justiça pode apurar as responsabilidades. Porque é uma relação contratual. Quais são os termos do contrato da pessoa Cassiane com a MK? Será que ela tem autonomia para opinar na construção do clipe? Esse mundo empresarial e artístico é muito amplo. Tem que observar isso. Não é direcionar para a pessoa física de Cassiane, até porque ela tem uma carreira belíssima. Mas esse episódio é importante para que Cassiane e toda personalidade religiosa compreendam que eles exercem um poder simbólico sobre a comunidade deles. Então, Cassiane acaba exercendo um poder simbólico sobre as mulheres que ouvem essa música. Esperamos que eles passem a observar a partir de agora que tudo que fazem com base na Bíblia tem reflexos sociais que vão ter efeitos para a sua comunidade e brasileiros de forma geral.
O movimento já articulou ações futuras? Já sabe de que forma vão continuar atuando?
Sim. Foi algo muito natural, a gente crê, realmente, no mover espiritual, não foi nada planejado, então simplesmente nos reunimos. De lá para cá, a gente tem que se organizado, mas, como tudo é muito novo, a intenção é que a gente continue com ações, tanto para trazer mais conhecimento e informação para as mulheres que estão dentro da igreja, como também vigilantes com produtos com o mesmo teor, para apontar e dizer que não é esse o caminho, não é essa atitude que deve ser tomada.
Como é a relação entre evangélicas e feministas? Há preconceito e resistência?
O que nós, mulheres evangélicas, trazemos na discussão dentro dos nossos segmentos religiosos – porque só o Mosmeb conseguiu reunir 70 coletivos diferentes, e dentro desses coletivos existem mulheres de denominações diferentes, então é muito amplo – é esse entendimento de que as mulheres sempre foram subestimadas. Sempre houve a questão da dominação por conta do patriarcado sobre essa mulher que estava sob domínio do pai, depois passava para o domínio do marido. Essa questão de posse, de controlar o que essa mulher pode e não pode fazer, onde ela pode estar e não pode estar e o que ela vai vestir, de controlar não só os nossos corpos femininos, mas também as nossas mentes e sobretudo os corpos pretos que acabam sofrendo mais ainda, por conta da questão racial. Há pesquisas que apontam que mulheres negras são mais atingidas pela violência doméstica. Em contrapartida, dentro das igrejas evangélicas, principalmente as pentecostais e neopentecostais, o público é predominantemente de mulheres negras. Então, temos que trazer esses entendimentos para as nossas irmãs. Claro que existe um pouco de resistência, porque quem está no topo não quer perder esse poder, esse senhorio, mas até agora a gente vem trabalhando e trazendo informação, e cada dia mais agregando mulheres para essa compreensão, porque é uma desconstrução. Nós fomos criadas compreendendo assim, que existe determinada coisa de mulher e determinada coisa de homem, tem que desconstruir isso. É um processo longo, a gente compreende isso, porque nada se muda de um dia para o outro, mas seguimos buscando e trazendo essa reflexão. Quando nós vamos fazer a leitura da própria Bíblia, a gente pode dizer que Jesus Cristo foi o primeiro feminista, porque em uma cultura extremamente machista e patriarcal na qual a Bíblia foi escrita na época, nós vemos o tempo todo Jesus direcionando e incluindo a mulher em todas as suas ações. Jesus quebrou diversas regras. Qual foi a atitude de Jesus com a mulher prostituta que foi apresentada para ser apedrejada? Quando Jesus ressuscitou, para quem apareceu primeiro? Para as mulheres. Ele sempre valorizou e incluiu as mulheres, então, não tem por que continuarmos vivenciando uma negação dos direitos da mulher.
Vocês conseguem manter um diálogo com feministas não evangélicas?
Acredito que sim. Nós estamos em um processo de construção, em um novo momento, é tudo muito novo, mas eu acredito que a gente tem conseguido manter esse diálogo. Até porque hoje nós colhemos os frutos dessas mulheres feministas que nos antecederam, que não traziam esse recorte racial nem recorte religioso. Em um determinado momento do feminismo, era como só existissem mulheres brancas. E aí teve que fazer o recorte racial, e agora, mais uma vez, a gente traz um recorte religioso, porque temos que nos unir para seguir. Não podemos ver essa fragmentação como algo negativo, mas algo que é diverso. Se nós falamos em diversidade, nós temos que estar sempre prontos para abraçar essa diversidade e dialogar com ela.
, fala sobre a importância do feminismo entre as evangélicas e sobre a romantização da violência contra a mulher.
Como surgiu o movimento?
O movimento surgiu a partir de uma plenária ampliada, que foi realizada no dia 19 de julho e contou com a participação de cerca de 70 coletivos evangélicos de todas as regiões do Brasil, por conta de um videoclipe de uma música que a MK Music lançou da cantora Cassiane e, infelizmente, traz encenações de violência doméstica, no qual é facilmente identificável a violência física, psicológica, patrimonial, e ainda de maneira mais inconsequente nós percebemos a naturalização e romantização dessas violências.
Por isso mulheres evangélicas de todo o país começaram a entrar em contato umas com as outras pelas redes sociais e nos reunimos. Daí, decidimos que precisávamos nos posicionar contra essa peça publicitária, porque não tem como a gente aceitar mais essa insinuação de que o silêncio, a fé e a devoção da mulher evangélica vai promover, através da ação divina e da manifestação Deus, a mudança de comportamento do agressor, que, com base no clipe, seria o marido.
O que é essa romantização da violência?
Achar que isso vai passar, através de oração ou que somente causas externas ao homem promovem essas agressões. O vício em drogas, em bebidas alcoólicas ou até uma ação espiritual demoníaca que atua na vida dele e que o leva a ter atitudes violentas. É dizer que tudo vai se resolver de forma muito simples. De uma hora para outra ela deixa um bilhete na Bíblia, vai
embora e ele pega aquela Bíblia e muda, se torna um novo homem. E na prática, pelos testemunhos que a gente tem das mulheres que sofreram violência, isso é um processo. Por várias vezes esse homem diz que vai mudar, que não vai mais fazer isso, vive um momento de plenitude no relacionamento, uma lua de mel, aquele período que está tudo bem e novamente, depois de um período, o agressor continua a violência contra essa mulher. Então isso é romantizar. Não precisa judicializar, não busca um amparo legal, você simplesmente silencia, ora e espera o mover de Deus. Isso foi o que nos indignou.
Teve até uma segunda versão do clipe, com a inclusão de cenas em que a mulher faz a denúncia. Isso resolve o problema?
Inclusive, a gente até percebe que essa mudança foi por conta dos nossos posicionamentos, porque choveu dislike no vídeo e pessoas questionando as instituições evangélicas. Não se pode apagar dados históricos. Infelizmente, o Brasil é um dos países que têm alto índice de violência doméstica, e temos uma pesquisa de Valéria Vilhena, que é teóloga, feita em 2009, depois publicada no livro Uma Igreja sem voz: análise de gênero da violência doméstica entre mulheres evangélicas, lançado em 2011, e nela ela aponta que 40% das mulheres vítimas de violência doméstica declaram-se evangélicas. Então, se temos dados que colocam o Brasil em uma posição péssima em relação à violência doméstica, em relação à pedofilia, ao feminicídio, e ao mesmo tempo temos um vídeo que coloca a mulher em uma situação de silenciamento, de suportar aquilo, esperar que vai passar, isso é um desserviço, uma irresponsabilidade, porque essa mulher que é silenciada, esperando uma mudança, pode até ser a vítima de um feminicídio, pois a agressão pode se perpetuar e acabar na morte dessa mulher.
O que foi feito pelo movimento em relação ao videoclipe?
Formalizamos uma reclamação contra a empresa MK Music no Ministério Público do Rio de Janeiro apontando como apologia à violência doméstica, pedindo a retirada dele do ar, por conta dessa influência que leva a mulher a crer que tudo vai se resolver, sem uma denúncia, sem o afastamento. Existe também no meio evangélico a questão de colocar muito peso na mulher, da responsabilidade sobre o relacionamento, pela felicidade do lar. A gente compreende que isso é fruto de uma cultura patriarcal. “A mulher sábia edifica a sua casa”, isso é uma passagem bíblica, mas não quer dizer que a mulher vai ter que suportar os erros, as atitudes pecaminosas e criminosas desse homem violento, que, além de ser um pecado, é um crime de agressão, tipificado na Lei Maria da Penha. A gente também produziu um clipe que demonstra cena a cena quais são os tipos de violência que se passam dentro do clipe da Cassiane, para trazer o entendimento para outras mulheres evangélicas. Na verdade, para mulheres de uma forma geral, mas como o clipe é evangélico e acaba circulando de maneira muito forte dentro das igrejas, é principalmente para alertar essas mulheres. E, além desse clipe, teve a representação oficial no MP, que cabe agora a decisão do promotor responsável processar ou não a empresa. A denúncia não significa que vamos conseguir algo, vai depender do MP.
Vocês entraram com esse pedido na Justiça contra a empresa produtora do clipe e não contra a cantora Cassiane. Mas ela não seria a pessoa por trás da produção também? Qual o papel de uma artista que tem um poder muito grande de disseminar ideias e pensamentos entre seu público?
Só a Justiça pode apurar as responsabilidades. Porque é uma relação contratual. Quais são os termos do contrato da pessoa Cassiane com a MK? Será que ela tem autonomia para opinar na construção do clipe? Esse mundo empresarial e artístico é muito amplo. Tem que observar isso. Não é direcionar para a pessoa física de Cassiane, até porque ela tem uma carreira belíssima. Mas esse episódio é importante para que Cassiane e toda personalidade religiosa compreendam que eles exercem um poder simbólico sobre a comunidade deles. Então, Cassiane acaba exercendo um poder simbólico sobre as mulheres que ouvem essa música. Esperamos que eles passem a observar a partir de agora que tudo que fazem com base na Bíblia tem reflexos sociais que vão ter efeitos para a sua comunidade e brasileiros de forma geral.
O movimento já articulou ações futuras? Já sabe de que forma vão continuar atuando?
Sim. Foi algo muito natural, a gente crê, realmente, no mover espiritual, não foi nada planejado, então simplesmente nos reunimos. De lá para cá, a gente tem que se organizado, mas, como tudo é muito novo, a intenção é que a gente continue com ações, tanto para trazer mais conhecimento e informação para as mulheres que estão dentro da igreja, como também vigilantes com produtos com o mesmo teor, para apontar e dizer que não é esse o caminho, não é essa atitude que deve ser tomada.
Como é a relação entre evangélicas e feministas? Há preconceito e resistência?
O que nós, mulheres evangélicas, trazemos na discussão dentro dos nossos segmentos religiosos – porque só o Mosmeb conseguiu reunir 70 coletivos diferentes, e dentro desses coletivos existem mulheres de denominações diferentes, então é muito amplo – é esse entendimento de que as mulheres sempre foram subestimadas. Sempre houve a questão da dominação por conta do patriarcado sobre essa mulher que estava sob domínio do pai, depois passava para o domínio do marido. Essa questão de posse, de controlar o que essa mulher pode e não pode fazer, onde ela pode estar e não pode estar e o que ela vai vestir, de controlar não só os nossos corpos femininos, mas também as nossas mentes e sobretudo os corpos pretos que acabam sofrendo mais ainda, por conta da questão racial. Há pesquisas que apontam que mulheres negras são mais atingidas pela violência doméstica. Em contrapartida, dentro das igrejas evangélicas, principalmente as pentecostais e neopentecostais, o público é predominantemente de mulheres negras. Então, temos que trazer esses entendimentos para as nossas irmãs. Claro que existe um pouco de resistência, porque quem está no topo não quer perder esse poder, esse senhorio, mas até agora a gente vem trabalhando e trazendo informação, e cada dia mais agregando mulheres para essa compreensão, porque é uma desconstrução. Nós fomos criadas compreendendo assim, que existe determinada coisa de mulher e determinada coisa de homem, tem que desconstruir isso. É um processo longo, a gente compreende isso, porque nada se muda de um dia para o outro, mas seguimos buscando e trazendo essa reflexão. Quando nós vamos fazer a leitura da própria Bíblia, a gente pode dizer que Jesus Cristo foi o primeiro feminista, porque em uma cultura extremamente machista e patriarcal na qual a Bíblia foi escrita na época, nós vemos o tempo todo Jesus direcionando e incluindo a mulher em todas as suas ações. Jesus quebrou diversas regras. Qual foi a atitude de Jesus com a mulher prostituta que foi apresentada para ser apedrejada? Quando Jesus ressuscitou, para quem apareceu primeiro? Para as mulheres. Ele sempre valorizou e incluiu as mulheres, então, não tem por que continuarmos vivenciando uma negação dos direitos da mulher.
Vocês conseguem manter um diálogo com feministas não evangélicas?
Acredito que sim. Nós estamos em um processo de construção, em um novo momento, é tudo muito novo, mas eu acredito que a gente tem conseguido manter esse diálogo. Até porque hoje nós colhemos os frutos dessas mulheres feministas que nos antecederam, que não traziam esse recorte racial nem recorte religioso. Em um determinado momento do feminismo, era como só existissem mulheres brancas. E aí teve que fazer o recorte racial, e agora, mais uma vez, a gente traz um recorte religioso, porque temos que nos unir para seguir. Não podemos ver essa fragmentação como algo negativo, mas algo que é diverso. Se nós falamos em diversidade, nós temos que estar sempre prontos para abraçar essa diversidade e dialogar com ela.
