Conhecido não só pela voz marcante mas também por um sotaque que não deixa dúvidas sobre suas origens, o humorista baiano João Pimenta está fazendo um grande sucesso nas redes sociais neste momento de quarentena, com quadros engraçados e bem característicos, o que vem tornando mais leve a vida dos seguidores que estão em isolamento social por causa da pandemia do novo coronavírus (Covid-19).
Com quase 800 mil inscritos no YouTube e mais de 200 mil seguidores no Instagram, João contou, em entrevista ao Portal A TARDE, que nem se acha tão engraçado, apesar das pessoas sempre falarem. Para ele, é coisa de energia mesmo.
Um dos quadros do humorista que vêm recebendo muitos compartilhamentos é o chamado “Larica do Ódio”, onde João traz receitas de comidas diversas, das simples às criativas, com um “leve” tom de revolta, criticando homens que não dividem as tarefas domésticas com as mães, tias e esposas, principalmente no momento de cozinhar.
“Foi um dia que eu estava de bobeira sem ter o que fazer e tirei o frango congelado da geladeira. Eu estava ‘puto’ porque tinha que descongelar e preparar o frango ainda e lembrei que já moro só há quase dez anos e faço minhas ‘paradas’ desde criança, porque meu pai ‘se picou’ e deixou a gente sozinho. Minha mãe criou a gente e fazia as ‘paradas’ dentro de casa, e percebo que, dentro dessa estrutura machista que a gente vive há séculos, os caras não têm divisão de tarefas com a mãe, tia e esposa”, explicou ele, contando que a intenção foi “esculhambar” esses homens e passar uma mensagem. “Tem sido muito positivo, porque a galera tem dado risada, eu tenho aprendido coisas novas também”, contou.

O trabalho de João Pimenta com a internet foi iniciado por causa do desemprego. Segundo ele, um projeto social onde trabalhava teve as atividades encerradas em 2011, que foi quando ele começou a produzir conteúdo para a web, há nove anos. “Tem gente dizendo que me assiste desde criança, eu acho bizarro porque nem sou tão velho assim, ainda vou fazer 30 anos”, disse.
Humor consciente
Um dos personagens de maior sucesso do youtuber é o Pé de Pranta, que tinha o objetivo de desmistificar todo o estereótipo que existe sobre os homens negros e favelados. De acordo com João, o Pé de Pranta questionava a polícia, as políticas públicas, além de chamar as pessoas para o debate sobre o racismo.
“Tem 4 anos que não faço mais [o Pé de Pranta] e a galera pede bastante para voltar. (…) Ele chamava as pessoas para o debate sobre o racismo, coisa que está na nossa sociedade desde sempre e hoje só está sendo mais filmado e deve ser combatido”, afirmou o humorista, contando que logo após o personagem vieram outros conteúdos, como redublagens de filmes, séries e animes, além dos quadros de ‘stand up comedy’, que são os shows de comédia. Dentre as redublagens feitas pelo roteirista, uma das mais famosas é da série da HBO Game of Thrones.
Para João, a inspiração para o Pé de Pranta foram amigos, alguns que, segundo ele, “já não estão entre nós por vários motivos, entre eles o genocídio do povo preto”.
“Quando acontece alguma coisa, o povo preto é sempre um caso isolado na favela, número mil e ‘tarará’, e aí Pé de Pranta surgiu nessa ideia de produzir alguma ‘parada’ para conscientizar as pessoas através da comédia crítica, de que favelado não é ladrão, que o favelado quer crescer na vida, ele quer estudar, quer ter acesso e oportunidade às coisas, além de mostrar que o racismo existe e deve ser combatido”, declarou.
João Pimenta também faz críticas ao universo nerd que, segundo ele, é naturalmente “escroto”, principalmente por parte dos homens. Para ele, é como se tivessem lido X-Men desde a infância e não entendido nada sobre racismo; e como se tivessem curtido toda a cultura Star Wars, mas não entendido nada sobre política.
“Muitas vezes é um pessoal que reproduz várias coisas ‘escrotas’, que há muito tempo era uma galera vista como inteligente. Dentro da minha pequenez eu tento deixar uma mensagem para essa galera, que é o que deveria ser o óbvio e natural de todo mundo, como não ser ‘escroto’, não ser racista, não ser machista, não ser homofóbico”, explicou.
Assumindo uma posição afirmativa em relação ao antirracismo, João Pimenta costuma se posicionar nas redes sociais para falar sobre política, com o objetivo de se expressar e conscientizar os seus seguidores. Vez ou outra percebe que acaba perdendo alguns números, mas sempre afirma não precisar da intolerância entre o seu público.

“As pessoas confundem muito política com identidade partidária. Toda vez que você diz que é contra alguma pessoa, automaticamente muita gente te coloca a favor da outra, e não é assim. Eu sempre lutei a favor das cotas raciais, sempre lutei contra o racismo, desde que me entendo por gente, porque eu cresci na favela e sou preto, acho importante usar o alcance que eu tenho para tentar colocar alguma coisa na cabeça das pessoas”, pontuou ele.
João contou que muita gente não concorda com seus posicionamentos, mas que não liga, pois na sua cabeça é incompreensível as críticas quando ele defende o antirracismo, quando afirma que a discriminação racial é algo errado.
“Eu acho bizarro, porque ser racista é bizarro, inclusive é crime. A importância de me posicionar é justamente trazer uma posição para tentar deixar uma mensagem na cabeça das pessoas, principalmente porque a galera está cega, não está vendo tudo o que está acontecendo, acredita em um salvador da pátria que não existe”, afirmou. De acordo com ele, é “pau na máquina e fogo em racista”.
Leveza na quarentena
Em tempos de notícias ruins, com muitas vítimas da pandemia e vítimas da violência no Brasil, acompanhar artistas tem sido um alívio na rotina de muita gente, principalmente quando se fala em humor. João Pimenta é um dos artistas que vêm cumprindo esse papel de trazer dias mais leves para o público da internet, garantindo entretenimento e boas risadas.
“Escuto e leio relatos de pessoas que dizem estar em depressão e problemas psicológicos e que o humor está salvando-as. Vale a pena lembrar que se puderem, é preciso buscar ajuda psicológica de um profissional, não só utilize o recurso da comédia. É não utilizar a comédia como muleta, mas usar em paralelo a algum tipo de terapia eu acho importante”, disse.
“Eu me sinto responsável por não falar bobagem e não ativar gatilhos na cabeça das pessoas. Tento usar o recurso que tenho, que é o humor, para fazer as pessoas darem risada e esquecerem um pouquinho os problemas”, finalizou.
